JORNAL MILÊNIO VIP - De onde vem as idéias

Colunistas - Antônio Laért

De onde vem as idéias

Publicado na edição 130 de Maio de 2013

O prazo é  mesmo um dos clicks da  inspiração.  Não fosse  ele, muita  coisa  deixaria de  ser  criada, entregue,  mostrada,  posta  à  luz. As  idéias,  como foi  dito, estão por  aí, no ar, no céu, no mar, no chão. Muitas vezes do nada, acha-se a solução, a  inspiração e a  partir  daí,  tece-se  a teia  de um  texto,  amarra-se-lhe  as  pontas  e  consegue-se dar  o  nó  final.  Claro  que  nada  é  tão  fácil  assim.  Um rasgo  de  inspiração é  tarefa a  poucos  reservada. Consta que Fernando  Pessoa  escreveu  de  pé, em  sua  cômoda  posta  ao  lado  da  cama,  numa  penada  só,  o  poema  “O guardador de rebanhos”,  por  seu  heterônimo  Alberto Caeeiro. Estamos falando, claro, de gênio, de um dos  príncipes  da  língua  portuguesa. Para os mortais, resta  somente o  esforço: dez por  cento  de  inspiração  e  noventa  por  cento de  trabalho. Cortes, ajustes,  repetição, retorno  ao  início, integram  essa  tarefa  árdua. Por vezes,  o  produto  final é  apreciável,  encanta, marca, impacta, interpela, modifica. Noutras ocasiões mais corriqueiras, cumpre-se apenas a obrigação de entregar-se algo ao leitor, que  o lê  sem  sensações maiores. O resto é sombra de árvores alheias. É  assim  que se  dá  o ato  de  criar; essa  força  de  gravitação e  estranha  magia; essa  luta  permanente  com  palavras  para  transitar  entre  a  inspiração e a  entrega  do  que foi prometido  a  nós próprios naquela hora mágica. São raríssimos os  criadores que já nascem  geniais e  vivem isolados  em  seus  gabinetes  e  laboratórios concebendo idéias  e inovações  sem  esforços maiores. Boas idéias dependem de ambientes propícios; lugares férteis onde as  idéias circulem livremente. O lento é importante, assim como as intuições acidentais; o encontro, a  vida, as  experiências, o aprendizado a partir do erro e os  momentos  de  silêncio e  contemplação ajudam. O insigth  e a  ruminação  também. Tudo se agilizou com  as  tecnologias, menos as  idéias, como disse  Jean-Claude Carriére: elas  continuam consumindo de nós  o mesmo  tempo que consumiam  nos  tempos  de Shakespeare e  Moliére.  É muito provável  que  você  tenha  dez  idéias  ruins num dia,  antes  de  tropeçar  numa  boa. Foi o que tentei fazer aqui. Espero que tenha  escolhido a  melhor.

 

 

Antônio Laért
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