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Colunistas - Nadja Natan

Jardins e paixões

Publicado na edição 130 de Maio de 2013

Foi bem estranho chegar na Inglaterra da Índia algumas semanas atrás, e ser recebida com neve e sem narcisos dançantes na beira da estrada. Narcisos amarelos e brancos, grandes e pequenos sempre me acompanham quando viajo do aeroporto para a minha casinha em Devon nesta época do ano. ‘É uma primavera fora do comum’, dizem os jornais. Desde que chegamos aqui ficamos dentro de casa e bem perto da lareira. Até a páscoa com a família foi ao redor da lareira. Mas hoje algo diferente aconteceu. Ainda que frio hoje faz sol bonito e como por mágica, meu marido e eu nos sentimos transportados para o jardim e lá ficamos horas. Mexemos com a terra, varremos as folhas secas, entramos em contato com as plantas que sobreviveram o longo inverno e conversamos com os vizinhos … Se você quiser saber o que está acontecendo na vizinhança é só colocar suas luvas de jardinagem e ficar na entrada da sua casa e com certeza alguém vai passar provavelmente com um cachorro para fazer a caminhada diária. ‘Oi tudo bem? Dia lindo, não?’ ‘É, até que enfim a chuva parou. Como vai a dona Maria?’ ‘Ah, a dona Maria não está nada bem, o gato dela brigou com o cachorro do vizinho.’ ‘É mesmo?’

A jardinagem na Inglaterra é atividade cultural. Num dia de sol, sem muito vento é quase certo que os jardins, grandes ou pequenos, serão invadidos pelos seu donos e seus instrumentos de jardinagem. O bretão tem uma verdadeira paixão pelo verde, por jardins, pela jardinagem tanto nas cidades como nas regiões rurais. Ele está sempre tentando criar seu próprio lugar cheio de beleza, cores, aromas, hortaliças, um espaço especial.

A paixão inglesa pelo jardim remonta ao tempo dos romanos. Os conquistadores romanos no século 1 cultivavam seus jardins em suas grandes mansões e palácios. Eram de natureza formal com plantação rigorosamente simétrica dividida por passeios de cascalho. Tinham nichos, estátuas, urnas, e assentos de jardim. Indo mais adiante no tempo vem a tradição monástica em que o jardim era visto como a fonte de alimentos para a cozinha, as ervas para o hospital e as flores para o altar: um jardim que combinava contemplação, trabalho e beleza. Já no início do século 18, os jardins ingleses mudaram do estilo formal e simétrico para uma visão idealizada da natureza, muitas vezes inspirados pelas pinturas de paisagens de artistas famosos da época.

Então para o inglês, este desejo de criar um certo ‘idílio rural’ no próprio quintal é uma tradição antiga. Só que agora qualquer um pode se dedicar à jardinagem, não importa o tamanho do jardim ou mesmo um canto qualquer do lado de fora de casa. É um passatempo que atravessa todas classes sociais. A paixão, a fixação pela jardinagem continua. Para muitos ingleses, um dia perfeito é aquele que se passa no jardim, de pazinha na mão, mão na terra e conversa fiada com o vizinho.

A atenção sem esforço da jardinagem funciona como um bom antídoto para nossa vida super ocupada de prestar atenção no trabalho, celulares, emails e Facebook. Quando está sol eu coloco minhas luvas de jardinagem que são lindas por sinal, meus tamancos crocs, roupa velha e vamos lá … cultivar flores e legumes, ter contato com a terra, transportar carrinhos de mão cheios de terra, cavar, plantar, capinar, e, no fim do dia, antes do sol se por pegar a mangueira e molhar as plantas. E então é hora de entrar em casa e tomar um chá sentada perto da lareira. 

Nadja Natan
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