JORNAL MILENIO VIP

Colunistas - Nadja Natan

Imaginando Magé

Publicado na edição 131 de Junho de 2013

Cenário
O século XVI, historicamente tido como a era da ascensão do Ocidente. Os personagens são: os soldados invasores franceses protestantes;  os colonizadores portugueses católicos; os escravos africanos muçulmanos e os indígenas com crença espiritual completamente desconhecida pelos demais. Emoções, sentimentos e convicções estão presentes nos personagens cujo destino se manifesta sem estarem conscientes da importância deste momento histórico. São personagens com intenções variadas, há ambição, coragem, medo e curiosidade. Há mitos. Tudo tecendo os primórdios de uma cidade. O ano é 1565, a região é a atual Magé.

Cena 1
Estácio de Sá, em reconhecimento pela valentia e atuação de Simão da Mota (o único personagem com um nome) na luta contra os franceses na região do Rio de Janeiro, lhe presenteia com uma sesmaria de terra fértil, próxima à grande futura metrópole. Simão da Mota, um colonizador português, que se sente muito orgulhoso e realizado de ser reconhecido por sua bravura e lealdade. Ele, agora rico, resolve ir morar e cultivar suas terras com uma comitiva de amigos e inúmeros escravos africanos. (É importante mencionar aqui que nesta época os lusos vinham para a terra nova sem suas mulheres que ficavam em Portugal, esperando que um dia eles voltassem.) Simão se mostra entusiasmado apesar das incertezas das possibilidades à sua frente: terra fértil, amigos, escravos, mulheres índias … é ... fator de importância fundamental para o surgimento de uma população. Simão pensa, olha para seus amigos e para seus escravos … Essas tribos de índios, o único  grupo, a única comunidade que realmente pertence ao lugar, estavam ali geração após geração, sociedade organizada, conhecedora de seu habitat e parecem tão estranhos, nus e despidos do conceito de pecado. Eles são acolhedores. Simão tem muito para fazer e pensar.

Cena 2
Aqui você se transporta no tempo. Sente o cheiro no ar, sente o sol no rosto, observa tudo ao seu redor. Pensa e acaba sonhando acordado. Isto é um momento histórico que você captura na sua imaginação. Interações de um grupo de portugueses, homens jovens com poder em suas mãos e em suas mentes, afinal eram bancados pelo rei. Eles são valentes e grandes aventureiros em terras estranhas, prontos para enfrentar o desconhecido. Eles são acompanhados de homens africanos já escravos, presentes ali para fazerem trabalhos forçados na lavoura. Estes por sua vez também jovens, provavelmente confusos, temerosos, doídos, maltratados, questionando o porquê de seus destinos. E os anfitriões, os únicos habitantes originais daquela terra, que vivem em colaboração com a natureza, dependem dela. Eles têm sua própria língua, identidade, mitos e lendas. Conhecem a flora e a fauna a fundo, as estações do ano, as estrelas no céu, praticam rituais de acordo com sua própria crença. São famílias, são comunidades.

Cena 3
Os três grupos étnicos, três línguas, três religiões, três padrões estéticos e éticos se aproximando uns aos outros. Um choque de culturas? Como se sentem? Sós? Invadidos? Como se veem? Curiosos? Como nós nos sentiríamos se fôssemos expostos a uma situação parecida agora? Humanos agindo e vivendo momentos que servirão como fonte do “ser brasileiro”. Aqui há uma reflexão: nossos conjuntos de valores, nossas crenças, nossa espiritualidade vêm daí. Portanto nossa noção de camadas sociais, de hierarquia e de poder é identificada nestas três representações que são: a supremacia do europeu aventureiro com poder nas mãos; a inferioridade e submissão do africano comprado, estupefato (que aliás, muitas vezes estes escravos muçulmanos eram instruídos e liam o Corão), e por último a presença dos habitantes originais, os quais por um erro de cálculo dos navegadores eram chamados de índios, aqueles que conheciam este microcosmo a fundo e amavam a terra, o ar, a natureza, que faziam parte de uma sociedade organizada.

Neste final de ato você ator reflete, faz uma análise crítica, sente como os personagens iniciavam um momento novo, o potencial de se misturarem… uma sociedade nova estava prestes a nascer. Você percebe o valor que um passado pode ter. O ator finalmente percebe que os descendentes dessa diversidade cultural, dessa cultura emergente, essa combinação de três é ele … somos nós.

Fim

De onde surgiu este texto? Ao ler uma entrevista antiga na Internet com Roberto Gambini chamada ‘O que é Brasil?’ concordei com o que ele sugeria sobre fazer uma releitura do País. 
(
http://www.istoe.com.br/assuntos/entrevista/detalhe/27304_O+QUE+E+O+BRASIL+)

Em parte esta leitura me inspirou a rever a minha história e, ao mesmo tempo, imaginar esta história pessoal num contexto de história coletiva.

Nadja Natan
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