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Colunistas - Dulcimar Menezes

“ROGAI POR NÓS QUE RECORREMOS A VÓS!”

Publicado na edição 131 de Junho de 2013

“Decifra-me ou te devoro” dizia a Esfinge, figura mitológica nas antigas civilizações do Egito. Decifrar as mensagens contidas nas histórias e estórias humanas é para mim uma paixão. Fábulas e parábolas me encantam! Os conteúdos dos mitos e lendas são compostos por arquétipos do inconsciente coletivo. Segundo C.G. Jung, existe uma instância psíquica que não é individual onde ficam armazenadas informações importantes que servirão de molde ou princípios para a formação do sujeito humano e, portanto, da humanidade. Assim sendo, lendas e mitos são uma espécie de sonhos relatados por uma mente coletiva. E, como todos os sonhos, são elaborados com símbolos a partir de uma linguagem poética e trazem embutidos em si mensagens codificadas, que quando interpretadas desvelam respostas e caminhos novos a velhas dúvidas ou conflitos. Considerados, por muitos, como invenções ou crendices tolas, as lendas e mitos, de fato, traduzem, em suas estruturas simbólicas, as verdades mais profundas e fundamentais armazenadas nos sítios recônditos do coração de uma sociedade.

Nascida e criada nesta nossa amada terra, Magé, desde a infância ouvi muitas estórias de pescadores e contadores de ‘causos’. Dentre todas, aquela que mais me impressionava, pois se compunha de um misto de encanto e mistério, era a lenda sobre o retorno da imagem de Nª Sª da Piedade à Igreja Matriz, vinda da capela da Piedade onde estaria alojada. E com prazer e emoção, nestes tempos de comemoração de mais um ano de vida de nossa cidade (senhora idosa que nos cuida e acolhe e, portanto, merece o nosso respeito e consideração), compartilho este belo conto tal qual outrora me fora. Contava-se (lamento muito que não se conte mais... Ou será que contam?) em tempos remotos que a citada obra da Senhora da Piedade ficava na Capelinha de Sant’Ana, no bairro da Piedade. Certa ocasião, a liderança da paróquia decidiu que ela deveria ser transferida para a Igreja matriz, no centro da cidade. Então, foi providenciado um carroceiro para transportar a obra artística que cumprindo a solicitação, levou-a até o seu destino, em seguida descarregando lá a valiosa mercadoria.  E, tão logo ocorria a entrega, era providenciado o seu posicionamento no altar principal da nave central da igreja. Pronto! Tudo arrumado! Vida que segue... Porém, aconteceu o inesperado... No dia seguinte bem cedo, ao chegar à igreja para realizar a primeira missa do dia, eis que o padre leva o maior susto! A imagem havia sumido! Isso mesmo! A Santa havia desaparecido. Procura daqui... Dali... E nada. Ninguém havia visto nada ou algo sobre o sumiço poderia relatar. Mistério... Que complicou mais ainda quando a procurada foi achada novamente. Sabem onde? Pasmem! Na Capela de Sant’Ana! Lá estava ela como se nunca houvesse saído. O que houve? Ninguém sabe, ninguém viu. Bom, desconsiderando a necessidade de maiores explicações para o assunto, o jeito era repetir todo o procedimento. Fizeram-se tudo novamente... Ô, seu carroceiro, o senhor ‘tá disponível? Vamos levar a Santa de novo. Pega, transporta, descarrega e arruma o objeto no lugar determinado...  Dia seguinte, chega o padre... Jesus! Sumiu de novo! Ui, me arrepio toda! O que teria acontecido, gente? Pois bem, a imagem estava, como se de lá jamais houvesse saído, na capelinha da piedade. Incrível, não? Pois é, e exatamente assim aconteceu uma terceira vez. Até que o padre, tomando posse de sua angústia provocada pelo constrangimento e inquietações originadas a partir de eventos tão surpreendentes e misteriosos, abriu-se a uma luz que clareou a sua mente e aqueceu seu coração. Decidiu então que a Imagem de Virgem seria levada para a Matriz em procissão, pelos braços e reverências do seu apadroado povo, toda comunidade mageense (abro aqui o que para mim é um importante parêntese para grifar a palavra toda, pois não me refiro somente a um grupo específico, pois nenhuma mãe faz distinção entre os filhos, não é verdade?). Voltando a nossa bela lenda... Realizou-se, então, uma linda romaria de fiéis que, com muita alegria e em meio a festejos e louvores (sem falar do orgulho e emoção do Sr. Carroceiro, que subiu, com toda pompa e circunstância, para o posto de Cocheiro da Rainha), conduziram a Santa Maria ao seu devido lugar e lá ela permaneceu e pode ser contemplada e admirada até os dias atuais. Mas que lugar é este? Um altar de igreja? Claro que não! O lugar do Divino? Evidentemente que não! Mas o lugar do SAGRADO esquecido no coração do homem que sofre e da humanidade que padece, pois se desmemoriou de sua origem que é o Amor Divino. E não venha me dizer que isto aconteceu porque as pessoas se afastaram das igrejas, pois estas são as maiores representantes entre nós daqueles que trataram seus símbolos sagrados como objetos e mercadorias pessoais com o objetivo de lucros próprios. Outras combatem a imagem de Maria, enquanto deveriam estar combatendo o mal verdadeiro. E o mal verdadeiro nasce da falta de Amor. Falta de amor de mãe que é puro cuidado. Cuidado Feminino. O homem se perdeu do feminino... A mulher se perdeu do feminino... O mundo se perdeu do feminino! O Sagrado Feminino, arquétipo de cuidado e sabedoria, que nos religa a nossa Fonte de Amor Eterno, este grandioso e indecifrável Mistério!

Parabéns Magé, por sua vida e seus belos sonhos, explorados pelos seus governantes e esquecidos pelo seu povo, porém jamais pelos humildes e sábios contadores de suas estórias. E que esta lenda nos recorde de que a nossa origem é nobre e que o mundo precisa de cuidado de Mãe, não importando se seu nome é Maria, Janaina, Yemanjá, Shiva ou Gaia. O que realmente importa é que ela nos ensine a reverenciar o sagrado e a dizer “Sim, eu aceito” e que o Amor possa nascer em nossos corações que assim se convertem em verdadeiros templos de adoração à Vida e ao Divino!

Salve Rainhas! Viva Magé!
 

Dulcimar Menezes
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