JORNAL MILENIO VIP

Colunistas - Nadja Natan

O Legado

Publicado na edição 132 de Julho/Agosto de 2013

 

Estou sem palavras, sem insights da situação, boquiaberta pela determinação e força coletiva dos brasileiros neste junho de 2013. Eu desejava tanto que algo assim um dia acontecesse, principalmente vendo as pessoas nas ruas protestando em outros países como na Espanha. Mas um movimento como este, que fala em despertar o gigante, só acontece no momento certo e no lugar certo, gradualmente, com o sentimento público não podendo se conter. Uma explosão! Isto é sinal de consciência pessoal atingindo um clímax coletivo.

Quando se está aqui ... um país europeu, onde o processo democrático exige que políticos prestem contas dos seus atos; onde o direito humano é defendido; onde existe a crença plena de que o ser humano tem direito às coisas básicas de vida digna como educação, saúde, segurança, infraestrutura. Quando se sabe que a corrupção existe mas que quando flagrada é punida com prisão; que existe injustiças, desigualdades, pobreza, analfabetismo entre adultos; que mesmo que exista brutalidade, crimes contra pessoas indefesas, ainda assim existe o fator cidadão informado e protegido por leis. Aqui existe o diálogo, a contestação, a cobrança, a justiça, a informação, o que dão ao cidadão um lugar importante no processo democrático… sempre pensava: “Por que não no Brasil?”

E agora, vendo este movimento de cidadãos exigindo o que lhes é de direito, eu sorrio. No início fiquei meio admirada mas ao compartilhar as notícias com meu marido vi que estava emocionada. Êta, Brasil! Como dizem os ingle
ses: “Now we’re talking.” (Agora sim.) Parece que os ares mudaram e membros da comunidade brasileira largaram o seu piquenique à beira do rio e começaram a se jogar nas águas, ora calmas ora turbulentas. Vivi no Brasil até meus 22 anos e ainda lembro da minha frustração com a falta de informação sem filtros de censura e sem interpretação medíocre. Queria uma informação descritiva, analítica, pessoal – expressão poética havia, mas era sutil demais para mim – de várias perspectivas com liberdade de expressão. Quando a Internet explodiu vi que brasileiros a usavam não só para jogos e diversão, mas também como um caminho à informação. Quando me dei conta que milhares de brasileiros traduziam vídeos, notícias e tudo o mais para o português para que todo tipo de informação ficasse disponível sem as barreiras de idiomas, ficou claro que finalmente as coisas iriam mudar. Acesso a informação é ferramenta política. Por isso virei tradutora das palestras do TED (Tecnologia, Entretenimento e Design).

Uma manifestação política é como se fosse um espelho da sua própria sociedade. Ela mostra os objetivos das pessoas ou a falta deles, suas intenções boas e más e transmite os níveis de participação. Ela mostra representações de quem compõe sua sociedade e como as propostas são reveladas: ganho pessoal ou coletivo. Ela dá sinais se é uma ação transformativa ou passageira, positiva ou negativa. E daqui da Inglaterra meu contato é feito através das redes sociais e mídia digital, que de certa forma me deixa removida de um contato real, mas consigo ver bem claro um espelho refletindo uma parte da sociedade pronta para exigir mudanças radicais dos seu governantes que até agora vinham fazendo decisões políticas de baixo interesse social, ou melhor, de alto interesse pessoal. E agora eles parecem perdidos porque as leis do jogo parecem ter mudado. Legados deixados por cada geração ficam gravados na história. Este é um momento importante, vamos ver que legado esta geração nos deixa. O Jornal Milênio certamente é um deles. Brasil!

Nadja Natan
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