JORNAL MILÊNIO VIP - A VOZ DA PRAÇA

Colunistas - Neuza Carion

A VOZ DA PRAÇA

Publicado na edição 132 de Julho/Agosto de 2013

Após compartilhar minhas memórias sobre a Praça Dr. Nilo Peçanha, lamentei não haver feito menção, por analogia, à ágora grega - a praça onde se reuniam os cidadãos para decidir as questões da vida em sua polis, sua cidade. Foi na praça, o espaço público, que foram construídas as bases da democracia – o governo do povo, pelo povo, para o povo.

Pois para minha surpresa e meu encantamento, ainda no mês de junho, vi a nossa praça mais uma vez cumprir o seu papel ao reunir jovens de todas as idades no movimento que sacudiu o país. E mais uma vez mergulhei em memórias de experiências que vivi noutras praças, noutros tempos, em que a voz das ruas se fez ouvir, por tristeza, ou alegria, ou revolta.

Lembrei da expressão assustada de minha mãe me puxando para longe da multidão que manifestava o pesar pela perda do “Pai dos Pobres”, numa praça em Belém, em 1954. Lembrei da explosão de alegria que tomou a Cinelândia pela conquista da Copa, em 1958. A mesma Cinelândia que assistiu ao dramático final da Passeata dos Cem Mil, dez anos depois, em 1968: cavalaria, gás lacrimogêneo, os estudantes correndo, o comércio baixando as portas, Vladimir Palmeira discursando pendurado em um poste. Lembrei da euforia das milhões de pessoas que ocuparam a Avenida Presidente Vargas no último comício antes das eleições de 1989, próximo à Candelária. Aí era eu a mãe, não fugindo, mas levando os filhos para participar. Por fim, lembrei da Rua Doutor Siqueira tomada pelos “caras-pintadas” em 1993.

É provável que a maioria destes atos tenha sido orquestrada com objetivos políticos. Mas, observando a seqüência até os dias atuais, creio ver uma progressão: da lamentação (infantil?) pela perda do protetor, à afirmação da identidade nacional, ao despertar da consciência, à capacidade de expressar indignação e de manifestar vontade.

Acredito que apesar de termos uma grande parcela da população desinformada e despreparada para a vida política, não somos um povo omisso, nem covarde. A história de nosso país é marcada, desde o início - de norte a sul - por movimentos e revoltas populares. As manifestações a que me referi são aquelas poucas que presenciei pessoalmente, dentre as inúmeras que vi acontecer nos últimos sessenta anos. Somos um povo afetuoso e alegre, sim, e festeiro também. Mas não leviano, nem (de novo) covarde!

Entendo que dá para perceber, no atual mo(vi)mento, claros sinais de progresso em direção à maturidade enquanto nação. É espontâneo, nascido de um sentimento generalizado de injustiça. É apartidário, independente de teorias, de ideologias, ou do interesse de grupos fechados em disputa pelo poder. Não se curvou à repressão e repudiou a violência em seu próprio meio. Continuou até obter algum resultado e o sinal de que sua voz está sendo ouvida. E permanece alerta, fazendo-se notar, ainda que de forma pontual.

É só um começo, mas um bom começo.

Nunca senti tanto orgulho do meu país.

 

 

Neuza Carion
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