JORNAL MILÊNIO VIP - PARA ALÍVIO DOS IMPULSOS INSUPORTÁVEIS

Colunistas - Antônio Laért

PARA ALÍVIO DOS IMPULSOS INSUPORTÁVEIS

Publicado na edição 132 de Julho/Agosto de 2013

Os “doidos” vêem longe. Tanta coisa se fez  e criou  a  partir  da  loucura ou da experiência  à  beira  dela,  que  devemos  admitir:  a  loucura  não é  inútil. “Havia  algo de  insano  naqueles olhos; olhos  insanos”.  A loucura de que falo, não é a perda abstrata da razão, mas um simples desarranjo, uma contradição no interior da razão, que continua presente, dentro do sujeito. “Os  olhos  se  passavam dias a  me  vigiar”. Evidencio aqui a loucura de cada um, como necessária à dimensão humana. A loucura residente, a  provocada ou a loucura induzida  por  estímulos  externos. “Dizem  que  sou  louco por  eu ser  assim,  mas  louco é  quem me diz  e não é  feliz”.  Humano, nessa ordem de idéias, é então quem tem a virtualidade da loucura. “Há muita gente aqui dentro de mim; todos  gritam e todos calam; todos  perdidos nesta prisão, vendo luzes onde não  há  nada”. A desordem nos  funda  como ser  humanos; nos dá nome e identidade. Se a vida fosse só método e conveniência o que  seria de nós ? A inquieta expansão do universo nos faz crescer. O rearranjo das células nos vitaliza. A secreta pulsação da natureza é sempre surpreendente.O ser humano vive com essa marca da regeneração permanente, com a  força da  vida  escondida na  minúscula semente. “Eu juro que é melhor não ser um normal”. Aceitação e superação é a largada para  recomposição  da  totalidade  perdida. Não tenho e não quero ter a visão maniqueísta de classificar comportamentos, etiquetar e colocá-los separados  por  gavetas,  apenas  porque  foram  feitos  sob  esse  ou  aquele  estado, sob  efeito  do  que aprovo, não aceito, tolero, condeno;  sob  essa ou aquela  circunstância. Não, a loucura pode produzir a arte em profusão. A realidade enriquecida pela interioridade  convulsionante gera cem por  um. O tropeço é o início do caminho. E o que  nasceu  sob o timbre  da  loucura, o que foi  produzido sob a  teimosia da  imaginação, aquilo que  veio à  lume na  corda  bamba da  vida, sob  luz, penumbra e escuridão, contém beleza, encanta, incita, inquieta,  instiga,  liberta e aprisiona. Basta a escolha do olhar conquistar expressividade para ultrapassar barreiras e catalogações. A arte produz sentimento e sensação, nos eleva e nos faz  transcender  para  além  de  nossa  imanência. É essa  criação  humana que  lapida  o  bruto que existe em  nós. É por meio dessa fresta de luz que encontramo-nos, reconhecemo-nos e descobrimos  potencialidades adormecidas  que  reconfiguram  os  domínios  da  existência.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Antônio Laért
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