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Colunistas - Raul Córdula Filho

MAGÉ – MEMÓRIAS (1)

Publicado na edição 133 de Setembro de 2013

Faz muito tempo... Em 1954 eu tinha 11 anos. Morávamos no Rio de Janeiro e meu pai um dia chegou mais cedo do que sempre com uma novidade: “Vamos morar no Estado do Rio, num lugar cheio de sítios que tem um rio de águas claras que descem por entre pedras redondas.”

Minhas irmãs mais velhas ainda não tinham chegado da escola, e os mais novos brincando no quarto. Minha mãe, na sua serenidade sertaneja, perguntou: “Que história é esta Raul, e porque você chegou tão cedo?” E ele: Beth eu recebi hoje um convite que me deixou entusiasmado, e decidi aceitar dependendo de sua  concordância, pois sei que o Rio não lhe faz bem.

E que lugar é este?

Magé, disse ele.

Eu nunca tinha ouvido falar desse lugar, mas achei que Magé seria a mulher do Pajé, e perguntei logo, do alto dos meus primeiros conhecimentos de História do Brasil:

Lá tem índio papai?

Ele disse: Não que eu saiba, mas tem muitas matas, florestas, rios e montanhas.

Ouvir aquilo foi para mim, menino perdido pelos corredores de um edifício, foi como um banho na minha alma.

Minha mãe concordou. Poucos dias depois ele me levou a Magé, pois eu era assim, para ele, como um amuleto da sorte. Viajei de trem pela primeira vez na vida.  Minha primeira visão de Magé foi da praça em frente à estação onde havia um jardim onde a manhã brilhava nas asas das libélulas que me lembraram os desenhos das fadas que eu via estampados nas páginas do Thesouro da Juventude.

Estas memórias me trazem à mente Fernando Pessoa: “Sei muito bem que na infância de cada um de nós houve um jardim. / (Particular, ou público, ou do vizinho) / Sei muito bem que “brincarmos” era o nome dele, e que a tristeza é de hoje.”.

Entre outros dotes pessoais que muito me orgulham, herdei de meu pai o nome. Era um jovem professor paraibano casado com Elizabeth Trevas Córdula com quem teve cinco filhos, os outros são Risoleta, Leda, Elizabeth e Roberto. Deixou nossa cidade natal, Campina Grande, em 1945 buscando na Capital Federal diálogos mais profícuos para suas ideias modernistas, inclusive na pedagogia, sua área profissional. Ele estava interessado no pensamento e na prática didática da educadora italiana Maria Montessori e veio atrás dessa vertente de pensamento.

No ano seguinte estávamos todos no Rio de Janeiro, ele ensinando em colégios que possivelmente não mais existem, como o Marcílio Dias, o Cileno e o Tamuld Torá. Aos sábados ele se encontrava com os amigos paraibanos, geralmente intelectuais, nas poltroninhas de vime amarelas da Galeria Cruzeiro, que ligava a Rio Branco ai Largo da carioca (foi demolida para da lugar ao patético Edifício Avenida central). A partir das onze horas iam aparecendo seus amigos: o poeta Zé da Luz, o pintor e cenógrafo (renovador da cenografia brasileira) Tomás Santa Rosa e o grande romancista José Lins do Rego, entre outros nordestinos que lá estavam como ele, em busca do saber naquele tempo em que uma carta passava às vezes um mês para chegar ao seu destino. A aventura carioca, em determinado momento de nossa história moderna, foi uma nota importante no currículo dos brasileiros de outras regiões, apesar da importância cultural de cidades como Recife, Salvador, Fortaleza e Belém.

Às vezes ele me levava. Eu tinha de oito ou nove anos quando ele atravessou a rua me segurando pela mão e entramos no Museu nacional de belas Artes. Chegamos na “Batalha do Avaí”, de Pedro Américo, e ele me disse: “Orgulhe-se deste pintor, ele é da sua terra.” Naquele momento comecei a pintar.

 

Raul Córdula Filho
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