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Colunistas - Neuza Carion

PARA CLARISSA II

Publicado na edição 133 de Setembro de 2013

Clarissa, esta é a segunda mensagem que lhe escrevo e, de novo, peço que não se aborreça por fazê-lo assim, publicamente. Na primeira, já faz tempo, dei notícias de nossa terra e queixei-me porque a importância dos acontecimentos só foi compreendida por alguns educadores e pelos jovens e, generalizando, concluí que “a vida continua, a Terra gira, o tempo passa e tudo muda, mas não melhora. As pessoas debatem aguerridamente o sexo dos anjos, confunde-se a parte com o todo, quem pode impõe regras para os outros seguirem. Enfim, tudo está como sempre foi.”

Terminei fazendo votos para o futuro e um apelo, embora soubesse que você não poderia atendê-lo: é que corria o ano de 1995 e, na verdade, eu me utilizei de um subterfúgio para compartilhar com os leitores a alegria pelo seu nascimento.

Agora volto a usar o mesmo recurso, mas desta vez não é só retórica. Agora você pode me entender – e me atender. Vou explicar: quase duas décadas se passaram e, mesmo que muita coisa tenha mudado, vejo que ainda somos testemunhas e vítimas não só de incontáveis (em todos os sentidos da palavra...) arbitrariedades praticadas por quem tem o dever de zelar pelo bem comum, como também de uma intolerável tolerância (e muitas vezes conivência) por parte de quem deveria estar atento aos seus direitos - e deveres. Ainda nos falta desenvolver noções claras de conceitos básicos como humanidade, igualdade, justiça, cidadania. E compaixão. Também de responsabilidade, seriedade, compromisso – tanto dos governantes como dos governados.

Mas vejo também sinais de avanço. Nas notícias, que você já não precisa que eu lhe conte, há indicativos de crescimento em dignidade e respeito, de maior interação e integração entre os grupos sociais. Acredito que a maior permanência dos jovens na escola tem uma parcela considerável do mérito. Além disto, a tecnologia inclui e as mídias dão visibilidade, aproximam e, até certo ponto, nivelam. Como exemplo: as manifestações culturais daqueles que eram os excluídos são valorizadas e usufruídas por quem, até então, detinha a prerrogativa de estabelecer padrões e formar opinião. E as redes sociais da internet não pedem comprovação de renda, nem exigem aprovação dos sócios...

São conquistas dos novos tempos, desta sua geração, herdeira da rebelião juvenil dos anos 1960. Uma geração permanentemente conectada, muito mais bem informada que as anteriores, que talvez por isto se mostre menos egoísta, menos centrada no próprio umbigo, mais sensível ao coletivo. E que recentemente demonstrou consciência de sua força, e determinação.

Os nascidos no ano daquela primeira mensagem, como você, estão atingindo, neste ano, a maioridade civil. Daqui por diante vão tomar parte ativa, também através do voto, nas decisões sobre os rumos do país. A todos, através de você, peço: se preparem, estudem, insistam, não desistam, confiem em vocês e no seu poder de transformar. Vocês ainda vão descobrir que a vida parece curta, mas com ignorância, fome e escravidão ela fica longa e dolorosa. Entendam que políticas públicas e programas sociais dão uma base, mas o que faz a mudança é a vontade de mudar e a disposição para agir.

Eu tenho procurado fazer a minha parte. Quanto a você, querida, eu espero, confio e refaço os votos e o apelo de dezoito anos atrás:

“... que teus olhos jamais precisem perder a inocência, mas se o mundo que deixarmos para tua geração não estiver melhor que o de hoje, toma a bandeira da luta e a ergue mais alto do que eu pude. Com todo o amor de tua avó.“

 

 

Neuza Carion
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