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Colunistas - Antônio Laért

Teimosia da imaginação

Publicado na edição 133 de Setembro de 2013

Estive na casa de Jorge Luis Borges, na Calle  Anchorena, 1660, em  Buenos  Aires, local  onde  viveu de  1938  a  1943. É incrível conhecer a casa de  escritores e  tudo que  gira  em  torno  deles. Aos 5  anos, disse ao pai  que  queria ser escritor. Aos 9 anos, traduziu do inglês para  o espanhol livro  de  Orson Welles. Trabalhou como  bibliotecário e  professor de literatura, tendo sido diretor  da  Biblioteca Nacional Argentina. Foi  ainda tradutor  e  crítico  literário. Era fluente  em  várias  línguas. Do pai que, fora um frustrado escritor, herdou uma monumental biblioteca o que o terá levado a afirmar  tempos  depois: "sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de livraria". Em vida, teve pouco reconhecimento  em sua terra natal. O seu valor foi notado no exterior e daí veio o reconhecimento tardio dos seus. Apenas duas províncias da Argentina lhe deram em vida condecorações – pratos  de porcelana com  seu nome -, que  foram por  ele muito estimadas. Viveu  quarenta  anos  com Maria  Kadana, ainda  viva e  em  plena atividade, à  frente  da  Fundação Internacional  Jorge  Luiz  Borges.  Seguiu a hereditariedade  da  família  e, tal  qual  pai  e  avô  materno cegos,  perdeu  também a  visão.  O homem  que  tanto  estimava  e apreciava  livros, o  ávido  leitor, não  pôde  mais  lê-los  sozinho  e  para  escrever  teve  que  ditar  a  alguém.  Esse desafio certamente foi bem  mais  duro  que  escrever  toda  a  obra  que  nos  legou. Mas  a  vida  é  feita  de  desafios  e  Borges  não  deixou  de  desfrutá-los,  mesmo  com as  limitações  da  visão. Sustentam até que sua  progressiva cegueira, ajudou-o a  criar  novos  símbolos  literários através  da  imaginação. Verdade ou  não,  viajou o  mundo,   recebeu condecorações, títulos  honoris  causae de  universidades  diversas.  Esse  argentino com raízes  fincadas  em sua  terra  exerceu  um  gênero  peculiar: a  literatura  fantástica. Transitou pela  poesia,  ficção e  ensaios. Um  texto  curto, direto,  enxuto,  preciso, com  vigor  e  leveza que encanta  o  leitor,  ainda  que, à  primeira  vista,  possa  sentir  algum  desconforto, até   atingir o  cerne  da trama  de  seus  textos. Deixar-se  conduzir  por  esse  erudito  e  gênio da  raça é bom,  faz  bem. Nesse  dia,  em que  transitei  pela  casa,  seus  cômodos  e  corredores, tal foi  meu  encantamento que   tive  a  ligeira  impressão  de  ter  visto  ali,  num  canto  do porão  daquela  casa,  o  Aleph -  um  dos  pontos  do  espaço que  contém  todos  os  outros  pontos -. Havia de  fato  um  mundo  no  porão e  toda  a  casa era mágica, povoada. Fechei  os  olhos, tornei  a  abrí-los.  Então vi  e  reconheci: era  mesmo  o  Aleph.



 


 

Antônio Laért
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