JORNAL MILENIO VIP

Colunistas - Antônio Laért

AINDA O LAVRADOR DE PALAVRAS

Publicado na edição 89 de Fevereiro de 2009

- ”Uma palavra abriu o roupão para mim, vi tudo nela.“
Manoel de Barros

- “Escrever é cortar palavras.”
Carlos Drumond de Andrade(1902-1987)

- “Escrever é enxugar até a morte.”
João Cabral de Melo Neto (1920-1999)

-“Escrever é cortar todo o resto e ficar no essencial”.
Ernest Hemingway(1899-1961)

Eu que aqui já reclamei do retorno, da resposta, do feeling, recebi o seguinte E-mail de um amigo-leitor: “QUEM FOI QUE DISSE QUE A PALAVRA NÃO TRADUZ AROMA? Protesto, porque já senti aroma saudável por repetidas vezes quando leio ou ouço a Palavra de Deus, ou quando se escreve com a alma, como aliás você mesmo já o fez em algumas oportunidades pretéritas, cujo aroma saudável se fez presente, todavia, quando a gente escreve apenas com a mente, aí sim a palavra não traduz cheiro, porque se deixou guiar pelos instintos, próprios dos animais irracionais, invocando a síndrome do cérebro do dinossauro. Escreva com a alma meu grande amigo Laért, que a sua palavra exalará aroma agradável, sem sombra de dúvida. Um bom amigo é um tesouro cada dia mais valioso do qual não se pode prescindir. Abraços Moreira”.

Que bonito e consolador ver as coisas desse ângulo, mesmo que seu protesto, meu caro amigo, tenha sido em alto e bom som, dado que na convenção dos E-mails, você literalmente ´gritou’ ao grafá-lo em maiúsculo, mas, devo dizer que fiquei comovido com sua sensibilidade original e visceral de discordar. Esse amigo-leitor, advogado de alma rebelada, sempre soube ver os detalhes e ler o que está escondido nas entrelinhas. Esse diuturno relacionar-se com a Palavra pode mesmo trazer-nos sentimentos mais diversos. E comumente o traz. Algumas vezes, escrevemos de maneira fria e técnica, simplesmente; outras vezes, tangidos por um figurino profissional que se impõe. Nessas oportunidades a comunicação se perfaz pela palavra, mas ela não está permeada daquele sopro vital.

Quando afirmei o que o amigo-leitor infirmou com seu protesto, o fiz em companhia que me abona – a do poeta Ferreira Gullar -, que também entende que palavra não traduz cheiro, nem perfume.

Mas, polêmicas à parte, quero crer que estamos, na essência, falando a mesma coisa. E você disse-o bem amigo-leitor quando afirmou: “já senti...” Essa disposição para a leitura é o que confere o frescor e areja o texto. Como já foi dito: no que conseguir ler, não procure tanto o saber, mas o sabor. Quem lida com palavras, sempre busca escrever com a alma, porque a razão, muitas vezes, é prisão que limita e os problemas mais urgentes, o corre-corre do cotidiano, sempre embaraçam a mensagem. Não foi sem razão que a sabedoria popular cunhou a expressão “ler com olhos de ver”. O seu “já senti...” é a faísca mágica que detona essa coincidência de propósitos tão desejada com o leitor, ou, por outras palavras, é essa indulgência da parte de quem lê ou ainda, o alargamento do foco e a abertura para essa dimensão.

Ah, aí adentramos o território da magia e encantamento, onde tudo torna-se magnífico. É um encontro de almas que ocorre; um jogo de sedução que se instaura. Por isso diz-se que o por do sol é sempre o por do sol. É você que muda. É você que vê o por do sol belo.

Antônio Laért
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