JORNAL MILENIO VIP

Colunistas - Antônio Laért

Um concerto para o sol

Publicado na edição 136 de Dezembro de 2013

- “No  meu  começo está  meu  fim e no  meu  fim  está  o  meu  começo”.
T. S. Eliot (1888-1965)

- “O tempo não pára! Só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo...” 
Mário  Quintana (1906-1994)

O que pode nos consolar da fome que  é  viver ? Como preencher a dor e a delícia de nascer  e viver na  terra ?  A  vida  aqui, já  aprendemos, não é  bem uma  viagem  de  férias.  Estamos  na  terra  de nosso  cativeiro, exilados, à  caminho. Isso tudo gera uma nostalgia.  Uma saudade de algo que  nos  falta,  como  se  estivesse para  acontecer o glorioso retorno de  quem  já  esteve   conosco,  mas  não  o  conhecemos.  Lembro  muito  bem  que  minha  avó  Glória,  quando  ouvia  uma  canção  que escutei muito na  juventude e  diz assim: “Esta fome de felicidade, é saudade do infinito; é saudade do paraíso; é saudade que a gente tem”,  além  de  gostar  da  música, se  reconhecia  nessa  saudade do  infinito e do  paraíso,  nessa  vontade  de  encontrar alguém,  chegar a outro  lugar, rever um  (des)conhecido. Vejo vovó me dizendo isso com uma nitidez  que  me  cega os  olhos para  o  que  há  aqui. Realmente sentimos saudade, uma tamanha saudade  do  que  não  sabemos. Temos necessidade de uma saída de emergência pela qual nutrimos o desejo de  escapar,   encontrar-se  e  retornar abastecidos. Mas  a  saída  de  cena, em  verdade,  é  definitiva. Não tem volta.  Por mais que  tentemos  deter  o  tempo  nas  mãos,  ele  escoa,  se  esvai,  flui,  evapora.  Nunca  é  tarde  para amar  essa beleza  antiga  e  tão  nova, que   procuramos  fora  e  está  dentro  de  nós.  Como dói  essa  saudade. É uma saudade que atravessa estranhezas. As aparências sempre enganam. O pouco que sabemos está na superfície,  jamais no âmago. Fazemos de qualquer pessoa um retrato subjetivo, ficcional  que  tangencia  o  real. No fundo, no fundo, todo mundo  anseia  por  um  abraço do  Pai.  Fica-se com saudade de algo que nunca se teve, do que falta-nos. Mas, curiosamente, temos lembranças de momentos  felizes  vividos  com  quem  ainda  não  conhecemos. Um dia passaremos tudo isso a limpo. Já aí, estaremos no  paraíso,  plenos  e  saciados. Toda saudade  e  nostalgia será  preenchida por  uma  presença.

Antônio Laért
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