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Colunistas - Antônio Laért

RESIGNAÇÃO ORGULHOSA

Publicado na edição 137 de Fevereiro de 2014

Consegui.  Já  estou  quase a  oito(8)  dias sem  ver  jornal,  E-mail,  telefone, rádio, internet. Abandonei por  esses  dias  a  compulsão de  saber  por  primeiro,  estar  on  line,  on time, full time. Estou  desde então,  desinteressado  desse  estado  de  coisas,  posto  em sossego,  a  contemplar  a beleza  da  paisagem, a  sentir  a  brisa,  o  farfalhar do  vento  nas  folhas dos  coqueiros. Cercado do meus, deixo  as  horas  correr  e    alternar-se entre dia e  noite, luz  e  escuridão. Estou entregue  a  leituras  que  acumulei.  Agora, nesses  dias, encontrei aqui por  algum tempo um  tempo sem  contratempos. Estou orgulhoso  de  mim mesmo, por ter  vencido,  renunciado a  esse  mundo  irreal,  ter  me  desligado  da  teia que  me  conecta e  que me mantém  preso  a  esse  ruído  do mundo.   Não  deixa  de  ser um exercício  de  fortalecimento do  meu Eu. Somente quando nada de exterior nos perturba é que nossos sentidos se abrem, é  quando notamos o mistério de todos os seres, renovamos os laços conosco e reencontramos o essencial. Não faz  qualquer  sentido ficar ligado,  quando  escolhemos ao longo  do ano,  apenas um pequeno  e  curto  período para  desconexão  de  tudo  e  de  todos.  O E-mail,  o  celular, são  coleiras  eletrônicas  que  nos domesticam e escravizam.  Nesse  tempo  de  superabundância  de  tudo é  necessário  separar  a  melhor  parte,  selecionar  aquilo  que  tem  mais  valor.  Foi o  que  fiz nesses últimos dias.  Realizei  meu  propósito  oculto. Em uma semana,  mesmo  nesse  mundo tão acelerado, pouca  coisa  muda. Parei para correr melhor.  Desliguei-me para  ficar  ligado depois. Um ano  calendário  é  feito  de  cinqüenta  e  duas(52)  semanas.  Normalmente paro  duas(2)  semanas  apenas.  Isso  tem  sido  o  suficiente  para  mim.  Natural  então que tenha  que  levantar  nesses  períodos  os  muros da  minha  vila  do  sossego. Uma semana fora da rotina e num lugar bonito, vai além de ser um descanso; é um tempo de re-criação. Do contrário, com  as interpelações de sempre, voltaria para a lida deixando  incompleta  essa  parte substancial  de  mim. A doença  da  pós-modernidade  é  muito  contagiosa.  Casais  sentados  frente  à frente,  mesmo em  férias, pouco  se  falam.  Cada  um maneja  seu  celular com mais  habilidade. Deixam  o  real  para  mover-se  no virtual. Que  diabo é  isso?  Como será o  futuro? Não sei. É  meu propósito  apenas  me  preservar,  manter  a  inteireza  de  meu  santuário  interior,  velar  pelo  equilíbrio  de  meu  físico,  alma  e  espírito. É  assim  que  tenho  tentado  escrever  minha  receita. 

 

 

Antônio Laért
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