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Colunistas - Neuza Carion

TEMPO QUENTE

Publicado na edição 137 de Fevereiro de 2014

Fevereiro: férias, festa, folia, fantasia, fervura: frevo e samba e axé.  Mesmo quando o calendário empurra o Carnaval para mais adiante. O calor acelera o ritmo e o ritmo acelerado gera mais calor, que inflama sentimentos e sentidos. Evoé! E, apesar disto, tradicionalmente o compasso é de espera, o tempo é de descompromisso, até que temperaturas mais amenas restaurem a lógica e restabeleçam a normalidade.

Por isto me parece tão incomum a atual movimentação do gigante desperto, ou melhor, em processo de despertar. Seja por influência das altas temperaturas, da habitual exacerbação sensorial, seja pela combinação de ano de eleições com a visibilidade trazida pelos próximos eventos esportivos, seja o desabrochar da consciência, ou uma mistura de todos estes fatores, o fato é que a população, em especial a juventude – ou parte dela – está usando seu tempo – ou parte dele –em manifestações públicas de caráter político, num período que costumava ser dedicado exclusivamente ao ócio e ao lazer.

Vejo nisto um bom sinal. Já era tempo do povo manifestar sua vontade, dizer o que deseja de forma inequívoca. Mas é preciso que seja de forma pacífica, além de legítima - e não é o que temos assistido.

Das notícias divulgadas na mídia, neste início de ano, algumas tomaram conta dos noticiários por dias seguidos, em todos os veículos de comunicação. Uma questão é a ação de auto-intitulados “justiceiros”, que se propõem a fazer justiça com as próprias mãos, alegando que quem deveria garantir segurança e ordem não está cumprindo seu papel adequadamente. Outra é a ação de vândalos e desordeiros infiltrados em manifestações que pretendiam ser pacíficas. Ambas têm origem na insatisfação com a administração pública e como característica a ação em grupo e, infelizmente, atos de violência.

Não vejo violência como solução, nem como meio eficaz de conquista da ordem e da paz. Nada a justifica.  Mas consigo entender a indignação e o sentimento de impotência e frustração que a indiferença, a inoperância e a impunidade causam. Consigo entender que medo e instinto de sobrevivência, combinados com decepção e falta de confiança, podem levar a atos extremos de desespero: somos humanos, falíveis, imperfeitos.

Não é difícil entender a reação desmedida motivada por um sentimento de legítima defesa. Ou se mata, ou se morre. Se os três poderes que compõem o Estado, num Estado de Direito, não cumprem seu papel, o cidadão está à mercê do caos e toma a iniciativa de se proteger, do jeito que puder, ainda que ilegal. Vale a lei da selva.

Mas, de novo, não sou a favor da violência, que cria um círculo vicioso e autofágico, que se alimenta de si mesmo e cresce. Também não vejo o povo apenas como vítima. O problema é sério, tem causas antigas e a solução não é de curto prazo. Vou ceder à tentação de repetir trechos de artigos anteriores:

“...o que diz respeito à segurança pública, vejo como conseqüência das desarmonias na vida em sociedade”...  “ chamo de “sociedades paralelas” as que vão, lado a lado, ao infinito, sem jamais se tocarem. Convivem, se vêem, se falam, mas não se conhecem, não se enxergam, não se entendem. E de modo geral não se aceitam. ”

 “Não adianta se lamentar e culpar os políticos. Políticos não são extraterrestres todo-poderosos que invadem e dominam a sociedade. São parte e fruto da sociedade que os coloca na posição que ocupam.”

“a solução tem um único caminho, que já vem sendo trilhado com bons resultados: educação.” ... “Mas precisamos ampliar o conceito de educação, que não diz respeito apenas ao que se aprende em instituições de ensino.”

Para finalizar, correndo o risco de causar polêmica, afirmo que todos e cada um, de algum modo e em algum grau, são responsáveis. Pelo problema e pela solução.

 

Neuza Carion
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