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Colunistas - André Alves

FOME DE CULTURA E CIDADANIA EM MAGÉ

Publicado na edição 137 de Fevereiro de 2014

Quando recebi o convite para escrever sobre o tema: Cultura em Magé, fiquei imaginando por qual papel social eu deveria realizar tal tarefa, se como arte-educador e animador cultural da Secretaria de Educação, com uma experiência de 20 anos atuando na rede estadual de ensino, ou poderia fazê-la como musico e compositor tentando sobreviver na difícil missão de ser percebido em meio a um terreno nada propício a sensatez, sensibilidade e construção musical edificante, uma vez que meu trabalho não se enquadra nos moldes da indústria cultural. Pensei ainda, em realizar um texto que prevalece-se a minha condição momentânea de membro do conselho municipal de política cultural representando a sociedade civil, mas acredito, que nesse momento o que de fato precisa preponderar é a minha condição de pai, que cria um filho em um município que sofre de profundas carências, sobretudo no tocante a cultura, e a preocupação acredito não ser só minha, ainda mais quando temos a necessidade de superação  da visão de que cultura é algo que diz respeito somente aos artistas, o que é um equívoco e, quem melhor define os conceitos para entendermos o que é cultura é a antropologia, quando afirma que a cultura é apreendida por cada indivíduo na convivência com os demais, com aqueles que compartilham certos modos de ser, de pensar e de agir, embora tenha um caráter dinâmico, modificando-se com o passar do tempo pela reconstrução dos valores, crenças, hábitos, normas sociais, regras de conduta, modelos de comportamento e visão de mundo.

É lamentável que não existam equipamentos culturais públicos ou privados dentro dos  limites municipais. Não há sequer um teatro, cinema, centro cultural, biblioteca, museu, ou qualquer outro espaço que possa abrigar as manifestações artísticas, a memória, a história, os agentes e grupos culturais. E aí, fico me perguntando como é que fomos nos tornando em um município com tamanhas mazelas, uma vez que em  tempos outrora, nossa situação na oferta de bens culturais de alguma forma não apresentava um cenário tão pavoroso como o atual.  Hoje somos presas fáceis dos canais midiáticos, e estes estão a serviço da disseminação da cultura de massa, fazendo com que as pessoas desvalorizem outras formas de expressão cultural, sobretudo as culturas erudita, clássica e principalmente a popular, o que é determinante para gerar um quadro onde a população seja incapaz de pensar esteticamente, de julgar o que é melhor para si próprios, e de ter atitudes livres e conscientes, e é aí que insere a minha preocupação como pai e como educador. Quando temos a necessidade de buscarmos o frescor das artes, temos que recorrer aos municípios vizinhos de Caxias, Petrópolis, Teresópolis, Niterói e Rio de Janeiro, e isto para alguns, porque a imensa maioria da população fica acondicionada nesta vulnerabilidade que imbeciliza e corrói a alma.

Meus caros amigos, temos que reconhecer que está faltando cidadania em magé, e cidadania, mais que palavra é atitude, com isso, acredito que devemos assumir o papel de protagonista na própria história e, agir na construção de um futuro diferente, onde as discrepâncias entre a lei e a realidade não sejam tão evidentes e temerosas. Os Direitos Culturais, além de serem direitos humanos previstos expressamente na Declaração Universal de Direitos Humanos (1948), no Brasil encontram-se devidamente normatizados na Constituição Federal de 1988 devido à sua relevância como fator de singularizarão da pessoa humana.  Está também garantido no ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente - , e na lei orgânica municipal.  Apesar de ser um direito fundamental, até a presente data nunca houve política pública de cultura e, isto aconteceu, porque fundamentalmente os governos até então não entenderam o papel da cultura no desenvolvimento do nosso município.

Apesar de ter apontado até aqui um cenário nada animador, tenho que ressaltar que neste momento algo novo começar a surgir, o que pode ser o limiar para um cenário mais digno para a população mageense. A inserção do município por parte do governo atual no Sistema nacional de Cultura, o que demanda a composição do CMPC – Conselho Municipal de política Cultural de Magé, a elaboração do Plano Municipal de cultura e, a definição de um fundo municipal de cultura, entre outras ações, podem desencadear uma investida que perceba o real papel da cultura, principalmente nas dimensões da cidadania e da economia.  Para tanto é preciso melhorar ainda mais o dialogo com a sociedade civil, a participação popular, de forma que o cidadão seja chamado a contribuir para a construção de uma política pública. E aí, a política que era apenas de governo passa a ser de todos, da sociedade, do povo.

Apesar da pouca idade de meu rebento, não abro mão de ter com ele momentos de diálogos sobre questões que podem até parecer complicados num primeiro momento, mas que são primordiais para o entendimento do papel de cidadão.

André Alves
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