JORNAL MILENIO VIP

Colunistas - Antônio Laért

Escritores

Publicado na edição 139 de Abril de 2014

 

Escritores são pessoas que não sabem o que fazem, nem por que fazem. São seres que acabam seqüestrados pela escrita. A origem do escritor deve ser a infelicidade. Sim, porque as pessoas felizes fazem coisas bem mais interessantes: viagens, praia, esportes, etc..., jamais trancam-se em cômodos solitários para, em silêncio, se debruçar na produção de um texto que ninguém pediu e jamais irá ler, a não ser por um desses descuidos da vida. Esses seres estranhos diariamente questionam a si próprios sobre o ofício a que se entregaram, indagando se vale a pena prosseguir. Com efeito, jamais a pena de quem escreve avança sem esforço. É necessário quase sempre raspar o tacho magro e oco das idéias; arranhar a superfície. derrotar um pelotão de palavras. O escritor é um operário das palavras que, numa transpiração contínua prolongada, todo dia tira leite de pedra. Prosseguir na escrita é tarefa reservada apenas aos muito fortes. Tudo é um estímulo para pular do barco: os poucos leitores, a indiferença deles, a falta de resposta. Só o fazer arte e o assumí-lo como um comportamento existencial justifica esse estado de coisas. Nada explica nada e tudo precisa de explicação. É uma terra árida, rachada e seca. Muitas vezes acredita-se que a resposta a um texto será notável, mas nada vem. Nem um comentário, gratidão, um elogio ou crítica. Nada. Passa-se desapercebido, incógnito, indiferente. Aí que se revela o perfil doentio desses seres. Por que prosseguem ? Qual o sopro que os move ? Talvez exista uma força interna e o desejo de que num dia virá o reconhecimento, ou quem sabe, apenas a necessidade de expelir uma idéia ou um pensamento para desintoxicar-se. Nutrir a idéia de que seu texto será lido com a atenção devida, a vontade e o prazer de nele encontrar algo, o faça ir em frente. Tudo é relativo. Talvez um resíduo e a necessidade atávica de fazer isso apenas para manter-se em equilíbrio ou quem sabe até, por necessidade mesma de acreditar na invenção de sua escrita é o que o mantém nesse foco. As palavras fazem com que se reencontre o significado das coisas. Esses seres doentes talvez sejam os médicos do mundo, ao dar toda sua saúde por acreditar que essa contribuição fará melhor o lugar onde se vive. Perdem o corpo para escrita e a vida passa por eles e lhes devolve e situam como terapeutas do mundo. Ah, se eu falar bonito um dia.

 

 

Antônio Laért
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