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Colunistas - Neuza Carion

Caminhos

Publicado na edição 140 de Maio de 2014

A vida é uma viagem: uma aventura que não escolhemos fazer e em cujo início somos levados por caminhos que desconhecemos. Na caminhada aprendemos.

Aprender é fascinante. É o que nos possibilita continuar a marcha e nos dá o poder de escolher o percurso. Mas aprender é também um desafio e, quanto mais cedo o enfrentamos - e dominamos - mais cedo temos noção de objetivos e conquistamos autonomia e velocidade, com segurança.  

Tenho um exemplo particular para isto: moro na zona rural e o trajeto de minha casa até o ponto de ônibus mais próximo é de aproximadamente três quilômetros. A pé, mesmo num bom passo, é uma caminhada de cerca de meia hora. As estradas, embora as chamem de ruas, não têm placas indicativas e nenhum beneficiamento: nem pavimentação, nem calçamento, nem iluminação. Transitar por elas, a pé ou sobre rodas - quantas forem - sempre tem o seu quê de aventura e sua dose de perigo, seja pelos acidentes geográficos (fixos ou de acordo com as condições climáticas: subidas, descidas, barrancos, valas, crateras, poças, atoleiros, lama, areia, pedras, pedrinhas, pedregulhos, barro preto, branco, vermelho), seja pelos possíveis encontros com toda uma zooteca (bois bravos, vacas paridas, cavalos xucros, cães ferozes, gansos perseguidores, galinhas assustadas, bêbados inconvenientes, correição de formigas e, ainda que muito raramente, cobras. Assaltantes, ainda não encontrei. Policiais estourando esconderijo de seqüestradores, sim.

Moro na mesma rua e faço o mesmo trajeto, quase que diariamente, há mais de trinta anos. Já o percorri de todos os jeitos possíveis: a pé, de bicicleta, moto, carro; sob sol e chuva, sozinha, acompanhada, levando, sendo levada, andando e lendo, andando dormindo, manhã, tarde, noite, madrugada, etc. etc. etc.

Sei onde está cada buraco, cada pedra, os lugares onde costumam parar os animais, quais casas têm cachorros (e quais são bravos), onde deixam acesas lâmpadas que me cegam. Sei a velocidade certa para não forçar o motor, o esforço exato para não cansar as pernas, e em qualquer caso, o que fazer para não ir nem rápido nem devagar demais. Sei também o cuidado a tomar em noites escuras, quando é preciso uma dose extra de atenção para perceber qualquer mudança. 

Entretanto, nem sempre foi assim. No começo, apesar de cheio de beleza, o percurso pareceu longo e cansativo. E não adquiri em uma só caminhada o meu conhecimento, nem caíram do céu força, resistência, velocidade e recursos para lidar com limitações, inclusive as que a passagem do tempo impõe. Eu os fui conquistando a cada marcha, a cada dia, ao longo dos anos.

 Hoje, muitas vezes distraída, já nem percebo a distância nem o tempo gasto a chegar, ainda que decididamente já não tenha o mesmo vigor dos primeiros tempos. E tão segura estou, que quando muito cansada fecho os olhos, dou alguns passos, abro-os de novo, olho em volta, torno a fechá-los e prossigo, não paro de andar, certa de que meus pés também já conhecem o caminho. São mínimas as chances de acidentes, nulas as de engano. 

Este não foi o primeiro, nem será, espero, meu último caminho. Outros trilhei e trilharei, uns sempre levando a outros mais, mas este é o mais constante e dele, mesmo agora que ainda o tenho, guardo um sem-fim de memórias de dor, alegria, raiva, susto, riso. De sol quente, frio e chuva, bolsas pesadas, marcha forçada, crianças que choram, revoada de mosquitos, fogo no motor do carro, lama até os joelhos. E também de vizinhos solidários, reflexões solitárias, longas conversas, pasto estrelado de vagalumes, crianças correndo atrás de fiapos de névoa ou procurando estrelas no céu, redemoinhos de borboletas, brisa e lua, orações e gratidão por ter um caminho. Quero-as todas. São lições, estímulo e recompensa.

Gosto de pensar nisto como uma metáfora para o aprendizado. Novas tarefas, ou novas formas de executá-las são o desconhecido e ainda que tenhamos medo, ou não tenhamos escolha, são caminhos que se abrem. 

Se quisermos alcançar objetivos e aceitarmos o desafio de uma nova atividade, precisamos primeiro nos informar: observar, ouvir, ler, estudar, aprender. Se possível, acompanhar quem já sabe, até podermos ir sozinhos. E ir com cautela, sem pressa e sem medo - que é preciso respeitar o desconhecido, mas não temê-lo - até conhecer bem o caminho. E quanto mais o percorremos, mais o conhecemos, mais nos sentimos confiantes e seguros, e mais rapidamente alcançamos nosso destino, porque não precisamos parar a cada momento para decidir qual o próximo passo. Mesmo no escuro, ou de olhos fechados, os pés vão sozinhos.

E então, as recompensas: o poder de saber caminhar, a alegria de poder ensinar e o tesouro das lembranças.

 

Neuza Carion
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