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Colunistas - Antônio Laért

Receita de bolo de sono

Publicado na edição 140 de Maio de 2014

“ Preocupação  é  uma  ave  que  pousa  na  sua  cabeça  todo  dia. A  sabedoria  é  não  deixar  que  ela  faça  ninho”.

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 Senhor, a noite veio e a alma é vil. Tanta foi a tormenta e a vontade! Restam-nos hoje, no silêncio hostil,o mar universal e a saudade”. 

                                                                                           Fernando  Pessoa (1888-1935)


Minha  sobrinha chegou  com  olhos  de  quem  não dormiu.  Ficou  até  as  quatro  horas  da  manhã  sem  conseguir  embalar  o  sono. Não conseguiu se liberar  dos  pensamentos  que   iam  e voltavam  à  sua  mente. Começou o  dia  indisposta,  devendo.  O problema  não é  novo,  mas  tem  sido  agravado  pela  tecnologia  da  pós-modernidade. Muita luz, brilho exagerado, ausência de momento  a  sós,  de silêncio, medo  de  escuridão.  Tudo  tem contribuído  para  esse  quadro  de  quase  epidemia. Quando  o  sono  dá  os  primeiros  sinais,  temos  que  dar  nossa  contribuição, afastando-nos  da  TV,  do  computador, do  celular, de  tudo  que  tem ocupado nosso  tempo.  No  momento certo devemos entrar  em  nosso  quarto,  fechar  a  porta e  buscar  uma  leitura que ajude  a embalar  o sono. Como escreveu Thomas Merton: “Deve haver um momento no dia em que o homem que faz planos os esqueça e aja como se não tivesse feito plano algum. Deve haver uma hora do dia em que o homem que precisa falar fique em total silêncio. E que sua mente não mais formule raciocínios e ele se pergunte: tinham algum sentido? Deve haver um tempo quando um homem resoluto põe suas resoluções de lado como se todas tivessem sido quebradas e aprende uma sabedoria diferente: distinguir entre o sol e a luz, entre as estrelas e as trevas, entre o mar e a terra firme, entre o céu noturno e a encosta da colina.” Esse momento é  a  preparação  para  o  desmaio  imprescindível  à  nosso  equilíbrio e  sanidade.  É  o  sono. Tudo  deve  ser  adiado.  Desligado. Ao  que  insiste  em  incomodar devemos  dizer  como Fernando  Pessoa: “chega por  hoje  realidade, volta  amanhã”.  A melhor  idéia  é   guardar  tudo aquilo  que  possa  nos  incomodar  na   nuvem do esquecimento: um compartimento  de  nossa  memória  onde  depositamos  as  pendências e no  dia  seguinte as recuperamos.  Esquecer por um  momento  de  tudo,  isolar-se  para  no  dia  seguinte  voltar  à  carga  disposto,  rejuvenescido,  em  condições  de  se  deparar  com  os  desafios  pendentes  e  os  que  virão. Em  verdade não  somos  a mensagem  que  os  produtos  da  sociedade  de  consumo querem  passar: on line, on time, full time. Não!  Quem  não  se  convencer disso  pode  sucumbir  gravemente  e  ser  descartado  no  mesmo  tempo  em  que  a  sociedade  de  consumo costuma descartar  as  coisas.  Durma tranqüilo e restaure suas forças. Ajude a criar  a  solenidade  desse momento. Esse estado  de  repouso,  é um  tempo  vigoroso e  longo, que,  não  sem  razão,  ocupa  um  terço  de  nosso  dia.  Aproveite-o  e  o  seu  dia  será  melhor.

Antônio Laért
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