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Colunistas - Antônio Seixas

A farsa de João Antônio Guaraciaba

Publicado na edição 141 de Junho de 2014

Circula pela internet e já foi publicada em alguns jornais da cidade a história de João Antônio Guaraciaba, dito ex-escravo reprodutor em Magé. Ocorre que essas publicações não questionam o relato desse personagem, que contraria a própria história brasileira.  Dizem as publicações que João Antônio Guaraciaba tinha 126 anos em 1975, então ele nasceu em 1849. Quando o homem atinge sua idade reprodutiva? Diz a biologia que o início do período fértil masculino começa por volta dos doze anos. No caso de Guaraciaba isso teria ocorrido, então, em 1861. Ocorre que a partir de 1871, com a Lei do Ventre Livre, os filhos de escravos não eram escravos. Então Guaraciaba só teria reproduzido novos escravos entre 1861 e 1871, ou seja, por dez anos. Dizem as publicações que Guaraciaba gerou trezentos novos escravos. Ora, num curto período de dez anos, quantas escravas seriam necessárias para gerar 300 escravos? Numa aritmética simples, chegamos ao total de 30 escravas. Agora, em qual fazenda de Magé haveria trinta escravas para engravidar, se a grande população nas senzalas era de homens, para o trabalho braçal? Se continuarmos o raciocínio, Guaraciaba nasceu em 1849. Então na Abolição da Escravatura (1888) ele tinha 39 anos. Se ele estava com 126 anos em 1975, então ele foi um homem livre por 87 anos. O que nos faz pensar: um homem com 39 anos pode ter quantos filhos quiser e quantas mulheres desejar. Onde está a família dele? Se em 1975 ele era morador de Mauá, isso tem apenas 39 anos (1975-2014). 

Então, em que casa morou? Quem foram seus vizinhos? Onde está enterrado? E, por 
fim, por que não apareceu nenhum parente dele até hoje se essa história circula pela internet? Outro detalhe: se considerarmos que a história das "doações" ao Barão de Mauá e a Dom Pedro for verdadeira, então ele não foi escravo em Magé, já que nem o barão nem o imperador foram fazendeiros neste município. Além disso, Dom Pedro II não possuía escravos e sim a Casa Imperial, bem como o Barão de Mauá não empregada mão de obra escrava, pois dizia que escravo não consome nem tem recursos para impulsionar um mercado consumidor. Por isso ele sempre condenou o sistema de produção vigorante na monarquia, baseado no trabalho escravo. O historiador Clóvis Moura em seu DICIONÁRIO DA ESCRAVIDÃO registra que João Antônio Guaraciaba seria neto ilegítimo do Barão de Guaraciaba e teria sido escravo reprodutor na fazenda do Visconde do Rio Branco, em Petrópolis (2013, p. 346). Porém o autor se equivoca num detalhe: o Barão de Guaraciaba teve dez filhos: Mathilde de Almeida (1865 – 1931); Adelaide de Almeida (1861 - ?); Christina de Almeida (1862 – 1944); Avelina; Seberlina de Almeida (1880 – 1922); Paulo de Almeida (Guaraciaba) (1884 – 1935); Arthur de Almeida (Guaraciaba) (1878 – 1942); Mário; Francisco Paulo de Almeida (1873 – 1916) e Raul de Almeida (Guaraciaba) (1886 – 1946), mas todos nascidos muito depois de 1849. Nenhum deles, então, pode ter sido pai do João Antônio Guaraciaba, que por consequência também não era neto ilegítimo do barão. Em resumo, João Antônio Guaraciaba não era neto do Barão de Guaraciaba, não foi escravo reprodutor em Magé, não pode ter gerado 300 novos escravos, no curto período de dez anos e tampouco seus filhos foram doados ao Imperador ou a Irineu Evangelista de Souza.

Antônio Seixas
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