JORNAL MILENIO VIP

Colunistas - Antônio Laért

Sal da terra 30 anos

Publicado na edição 141 de Junho de 2014

"Alguma  coisa  sempre  sobrevive  na memória”. 
Milton  Hatoum

"A  arte  é  uma  espécie  de  inutilidade 
indispensável".
Cildo  Meireles

Revisitar ciclos  bem demonstra  a  força da  vida  no tempo  presente.  Neste 2014, o Sal  da  Terragrupo  vocal e instrumental do  qual  fui  um  dos  integrantes, completa exatos trinta(30) anos, desde que gravamos o compactoduplo,“NA CONSTRUÇÃO DO REINO”. O canal do Sal da Terra no Youtube, lançado  para  celebrar  a data  está disponibilizado em  https://www.youtube.com/user/saldaterra1982Estávamos então em junho de 1984, quando  depois de  muitos ensaios,  ocupamos  por  duas  noites  seguidas  o  famosoestúdio  da  Sono-Viso  do  Brasil,  no Rio. Quantos sonhos acalentamos em torno desse “alento” que  Frei Francisco  Battistini, então padre da  Paróquia de Nossa Senhora da Piedade de Magé, e maior  entusiasta, nos  proporcionou com a iniciativa.

O  compacto  duplo   saiu do  forno em  julho  de  1984 
e  logo  em seguida  teve  que ser  recolhido  para reprensagem, porque  numa  das  faixas,  a  agulha  pulava sem ler a  canção. Refeitos   do   susto,  andamos  por aí,  fazendo   shows   e promovendo   nosso  disco.  Essa  paixão  que  marcou   nossa juventude, não teve  nenhuma estratégia estética prévia definida.

Nossa trama singular criativa se deu natural e simplesmente, na potência  contemporânea  de  nosso  tempo, do qual  sequer tínhamos  a  exata  noção  da  força. Nessa  intervenção  pela música,  sem querer e saber, acabamos deixando uma  marca estética da  leitura  de nossa  cidade e um entretenimento  cultural sadio com  as fantasias  e  sonhos  que fluíram. Mesmo  sem saber  e  dar  conta, no  caminho percorrido,  nos  defrontamos e sentimos  a pulsação de  nosso  tempo, vivendo  uma  juventude plena  de  significados.  Tudo  tinha  um  certo frescor, uma solaridade, fixação pela luz e  claridade. Utilizamos a música, dentre as artes, exatamente, aquela que tem a maior  capacidade de  mexer  no  reservatório emocional  das  pessoas.  E o fizemos sem  dar  por  isso, apenas  levados  pela  intuição e  pelas ondas  das  canções,  movidos  pela ‘vontade  de  sentar à  mesa e comer a  certeza  da  vida’. Àquela altura, tínhamos mesmo “sede  de  tudo”.  Vivíamos  uma  atmosfera  rica, desafiadora, instigante; um  ambiente  favorável  à  criatividade  e  a circulação das  idéias. Com o violão à mão, as  canções  nasciam  sem esforço  maior. Cada um hoje  cumpriu  parte  de  seu  destino  e todos  nós, temos inúmeras  estórias  para  contar: “sabemos  as armadilhas  e os  segredos   desse  mar”. Vivemos  a  vida ao longo desse   trinta anos  e  ainda  que  não sejamos mais  os mesmos,  conservamos  trancafiado em  nossa  arca, valores que tiveram origem naquele  tempo  e  se  consolidaram desde então.

“Há um menino, há  um  moleque, morando  sempre  no meu 
coração. Toda vez  que  o  adulto fraqueja, ele vem para  me  dar a  mão”. A maioria daqueles que  nos  acompanharam,  hoje, pouco  sabem  de  nós. E qual é a pedra  de toque que  está  por trás  dessa  iniciativa “ Sal  da  Terra  forever”,  para  além  de qualquer risco de mitificação da [bela!] experiência feita? Apenas o desejo de reunir os dispersos, encontrar-se ali novamente para cantar as canções que cantamos  e nos  embalaram. O encontro com certos amigos pode gerar  sempre  uma coisa bela, forte; um recorte de sons e possibilidades; um big-bang. Será então uma maneira de sonhar juntos outra  vez, semeando as canções no vento para ver crescer nossa voz, no que falta sonhar. Tudo, graça do hoje, plantada ontem. Nossa celebração de trinta anos é, então,  um  apossar-se  do  passado,  para  seguir  em frente, transformando o presente, para chegar  mais  perto  do  futuro que  desejamos. Não custa inventar uma nova canção!  A meus amigos do  Sal e a todos  que  se reconheceram nas linhas e entrelinhas. À vocês,  dedico, ofereço, consagro!

Antônio Laért
Conheça o perfil pessoal de nosso colunista ou outros artigos publicados por ele
Clique Aqui