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Colunistas - Luiz Gurivitz

Saia da Rotina

Publicado na edição 142 de Julho de 2014

O cérebro humano mede o tempo por meio da observação dos movimentos. Se você entrar em uma sala branca vazia, sem nenhuma mobília, sem portas ou janelas, sem quadros, sem relógio, sem TV, sem celular, em silêncio profundo, em retiro absoluto, você começará a perder a noção do tempo. Por alguns dias, sua mente detectará a passagem do tempo sentindo as reações internas do seu corpo, incluindo os batimentos cardíacos, ciclos de sono, fome, sede e pressão sanguínea. Isso acontece porque nossa noção de passagem do tempo deriva do movimento dos objetos, pessoas, sinais naturais e da repetição de eventos cíclicos, como o nascer e o pôr do sol.

Otimização dos pensamentos

Nosso cérebro é extremamente otimizado. Ele evita fazer duas vezes o mesmo trabalho. Um adulto médio tem entre 40 e 60 mil pensamentos por dia. Qualquer um de nós ficaria louco se o cérebro tivesse que processar conscientemente tal quantidade de pensamentos. Por isso, a maior parte destes pensamentos é automatizada e não aparece no índice de eventos do dia. Quando você vive uma experiência pela primeira vez, o cérebro dedica muitos recursos para compreender o que está acontecendo e você se sente mais vivo. Conforme a mesma experiência vai se repetindo, o cérebro vai simplesmente colocando suas reações no modo automático e ‘apagando’ as experiências duplicadas.

Noção de passagem do tempo

Se você entendeu isto já vai compreender porque parece que o tempo acelera quando ficamos mais velhos e porque os Natais chegam cada vez mais rapidamente.


Quando começamos a dirigir automóveis, tudo parece muito complicado, nossa atenção parece ser requisitada ao máximo. Então, de repente, um dia, passamos a dirigir trocando de marcha, olhando os sinais, lendo placas, conversando ou até falando ao celular, tudo ao mesmo tempo. Como acontece? Simples: o cérebro já sabe o que está escrito nas placas - você não lê com os olhos, mas com a imagem anterior da mente; o cérebro já sabe qual marcha trocar, quando parar o veículo ao sinal vermelho, etc. Simplesmente o cérebro pega suas experiências passadas e usa, no lugar de repetir realmente a experiência. Em outras palavras, você não vivenciou aquela experiência, pelo menos para a mente. E aqueles críticos segundos de troca de marcha, leitura de placa, etc., são apagados de sua noção de passagem do tempo. Quando você começa a repetir algo exatamente igual, a mente apaga a experiência repetida, entra no automático. Conforme envelhecemos as coisas começam a se repetir, as mesmas ruas, pessoas, problemas, trabalho, programas de televisão, reclamações. As experiências novas vão diminuindo. A vida torna-se repetitiva, sem novidades, chata e depressiva. Tanta coisa antiga se repete que fica difícil dizer o que tivemos de novidade na semana, no ano ou, para algumas pessoas, na década. Nestes tempos modernos passamos a viver no automático e a vida foi morrendo.  


Saia da rotina


O que faz a passagem do tempo parecer que acelera é a rotina. A rotina é essencial para a vida e aperfeiçoa muita coisa, mas a maioria das pessoas ama tanto a rotina que, ao longo da vida não muda nada, seu diário acaba sendo um livro de um só capítulo, repetido todos os anos. A vida perde a cor, dá lugar a doença e nos aproxima da morte.  Felizmente,  há um antídoto para a aceleração do tempo e para a morte: Mude e Marque. Mude, fazendo algo diferente e marque, fazendo um ritual, uma festa ou registros com fotos. Mude de paisagem, tire férias com a família, lugares diferentes. Marque com fotos, cartões postais e cartas. Tenha filhos, eles destroem a rotina e sempre faça festas de aniversário para eles e para você marcando o evento. Use e abuse dos rituais para tornar momentos especiais diferentes dos corriqueiros. Faça festas de noivado, casamento, 15 anos, bodas disso ou daquilo, bota-foras, participe do aniversário de formatura de sua turma, visite parentes distantes, entre na universidade com 60 anos, troque a cor do cabelo, deixe a barba, tire a barba, compre enfeites diferentes no Natal, vá a shows, cozinhe uma receita nova de um livro inédito. Escolha roupas diferentes, não pinte a casa da mesma cor, faça tudo diferente. Vá a mercados diferentes, leia livros diferentes, busque experiências diferentes.


Seja diferente


Se já estiver aposentada, vá com seu marido ou amigos para outras cidades ou países, veja outras culturas, visite museus estranhos, deguste pratos esquisitos. Em outras palavras: V-I-V-A, cada dia diferente! Porque se você viver intensamente as diferenças, o tempo vai parecer mais longo, mais vivido, vívido. Procure expandir seu tempo com qualidade de vida marcada por situações especiais. 

Luiz Gurivitz
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