JORNAL MILENIO VIP

Colunistas - Antônio Seixas

Ainda sobre a farsa de joão antônio guaraciaba

Publicado na edição 142 de Julho de 2014

Segundo o filósofo alemão Karl Marx, no livro “O 18 do Brumário de Luis Bonaparte” (1852), "a história se repete, a
primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”. Se a primeira é caracterizada pela seriedade, a farsa é de caráter puramente caricatural. Como nos adverte Robert Darnton, a missão do historiador é informar sobre a condição humana tal como ela foi vivida no passado. É por isso que nos voltamos sobre o personagem João Antônio Guaraciaba e as formas como foi representado.

 

Poucas são as fontes documentais sobre João Antônio Guaraciaba. Entre as fontes cartoriais, temos o seu registro tardio de nascimento, realizado em 11.08.1972, perante o tabelião do Cartório de Registro Civil de Pessoas Naturais de Magé, e o registro de seu falecimento, realizado em 05.02.1979, perante o Cartório de Registro Civil de Pessoas Naturais de Guia de Pacobaíba. Além desses registros, localizamos duas entrevistas dadas por Guaraciaba, a primeira em 1974, ao jornalista Gilson Baumgratz e publicada no livro “Barra do Piraí antiga e média” (Barra do Piraí, 1980, págs. 106-108). A segunda entrevista foi dada a Luiz Carlos de Souza, em 1975, e reproduzida no livro “New journalism: a reportagem como criação literária”, editado pela Prefeitura do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro, 2003, págs. 80-88). Existe ainda um verbete sobre ele no “Dicionário da escravidão negra no Brasil” do historiador Clóvis Moura (São Paulo, 2013, pág. 346).

Em seu registro de nascimento tardio feito perante o tabelião do Cartório de Registro Civil de Pessoas Naturais de Magé, Guaraciaba, em 1972, declarou ser natural de Campos dos Goitacazes. Mas, a Gilson Baumgratz, João Antônio Guaraciaba declarou, em 1974, que havia nascido no Sítio da Barra do Piraí, do Comendador Antônio Gonçalves de Moraes, no atual bairro Chácara Farani, no município de Barra do Piraí. Em 1975, a Luiz Carlos de Souza, Guaraciaba declarou que apesar de ter sido registrado no cartório de Magé como natural de Campos, era na verdade, nascido na África, em Angola, de onde veio para o Brasil aos quatro anos. Ora, então João Antônio Guaraciaba nasceu em Campos, em Barra do Piraí ou em Angola?

Em artigo anterior publicado no jornal “Milênio Vip”, consideramos a hipótese de João Antônio Guaraciba ter começado a gerar filhos a partir dos 12 anos (1862). Ocorre que em entrevista a Gilson Baumgratz, em 1974, Guaraciba declarou que iniciou sua “carreira” aos 17 anos (1867). E a Luiz Carlos de Souza, em 1975, Guaraciaba declarou que isso ocorreu somente aos 23 anos (1873). Ora, a Lei do Ventre Livre foi em 1871, então, ou ele gerou novos escravos por apenas quatro anos ou nenhum dos filhos dele foi escravo.

A Gilson Baumgratz, em 1974, Guaraciba declarou ser neto do barão de Guaraciaba. Essa informação foi também registrada pelo historiador Clóvis Moura em seu dicionário, mas, no artigo anteriormente publicado no jornal “Milênio Vip”, demonstramos que nenhum dos filhos de Francisco Paulo de Almeida (1826-1901), futuro Barão de Guaraciaba, pode ser pai de João Antônio, pois não eram nascidos em 1850.

Finalmente, Guaraciaba declarou a Luiz Carlos de Souza, em 1975, que era filho de Francisco Paulo de Almeida. E que seu pai era um traficante de escravos e fazendeiro em Campos. Porém, ao autodeclarar seu nascimento, perante o tabelião de Magé, omitiu o nome de seu pai. Por que da omissão? Quando o registro de nascimento foi feito em Magé, o barão já havia morrido há setenta anos, não havendo impedimento para que seu nome constasse no registro civil. Quando João Antônio Guaraciaba nasceu em 1850, Francisco Paulo de Almeida era um jovem de 24 anos que, desde 1842, trabalhava como tropeiro em Minas Gerais. Com o enriquecimento obtido com o abastecimento de gêneros alimentícios para o Rio de Janeiro, tornou-se fazendeiro, na segunda metade do século XIX, adquirindo fazendas, no que hoje são os municípios de Valença, Paraíba do Sul e Três Rios. Somente em 1884 Francisco Paulo de Almeida recebeu o título de barão de Guaraciaba. Então, quando João Antônio nasceu não existia o barão de Guaraciaba, no que se conclui que o seu sobrenome não guarda relação com o título nobiliárquico. Além disso, o barão não foi traficante de escravos nem fazendeiro em Campos dos Goitacazes. Sobre o Barão de Guaraciaba recomendo a leitura da dissertação de mestrado em história de Carlos Alberto Dias Ferreira intitulada “Francisco Paulo de Almeida – Barão de Guaraciaba: reflexões biográficas e contexto histórico”, defendida na Universidade Severino Sombra em 2009.

Antônio Seixas
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