JORNAL MILENIO VIP

Colunistas - Antônio Laért

Sal da terra: 30 anos

Publicado na edição 143 de Agosto de 2014

"Alguma coisa sempre sobrevive na memória”.
Milton  Hatoum


"A arte é uma espécie de inutilidade  indispensável".
Cildo  Meireles

 Revisitar ciclos bem demonstra  a  força da  vida  no  tempo  presente.  Neste  2014,  o Sal  da  Terra, grupo  vocal  e  instrumental do  qual  fui  um   dos  integrantes, completa  exatos  trinta(30)  anos,  desde  que  gravamos o  compacto  duplo, “NA CONSTRUÇÃO  DO  REINO”. O canal  do  Sal  da  Terra  no  Youtube, lançado para celebrar a data está  disponibilizado  em https://www.youtube.com/user/saldaterra1982.  Estávamos   então em  junho de  1984, quando  depois de  muitos  ensaios,  ocupamos  por  duas  noites  seguidas  o  famoso  estúdio  da  Sono-Viso  do  Brasil,  no  Rio. Quantos  sonhos  acalentamos  em  torno  desse  “alento”   que Frei  Francisco Battistini,  então padre da Paróquia de Nossa Senhora da  Piedade  de  Magé,  e maior  entusiasta,  nos  proporcionou  com  a iniciativa. O  compacto  duplo   saiu do  forno em  julho  de  1984  e  logo  em seguida  teve  que ser  recolhido  para  reprensagem,  porque  numa  das  faixas,  a  agulha  pulava sem ler a  canção. Refeitos  do  susto, andamos por aí, fazendo  shows  e  promovendo  nosso disco. Essa paixão que marcou  nossa  juventude, não teve  nenhuma estratégia estética prévia definida. Nossa trama singular criativa se deu natural e simplesmente, na potência contemporânea  de  nosso  tempo, do  qual  sequer  tínhamos  a  exata  noção  da  força. Nessa  intervenção  pela  música,  sem querer e saber,  acabamos deixando uma  marca  estética da  leitura  de nossa  cidade e um entretenimento  cultural  sadio com  as  fantasias  e  sonhos  que fluíram. Mesmo  sem saber  e  dar  conta, no  caminho percorrido,  nos  defrontamos  e  sentimos  a pulsação de  nosso  tempo, vivendo  uma  juventude  plena de significados. Tudo tinha um certo  frescor, uma  solaridade, fixação pela luz e  claridade. Utilizamos a música, dentre as artes, exatamente, aquela  que  tem a maior  capacidade  de  mexer  no  reservatório emocional  das  pessoas.  E o fizemos  sem  dar  por  isso,  apenas  levados  pela  intuição e  pelas  ondas  das  canções,  movidos  pela ‘vontade  de  sentar à  mesa  e  comer  a  certeza  da  vida’. Àquela altura, tínhamos mesmo “sede de tudo”. Vivíamos uma atmosfera rica, desafiadora, instigante; um  ambiente  favorável  à  criatividade  e  a circulação  das  idéias. Com o violão à mão,  as  canções  nasciam  sem esforço  maior. Cada um hoje  cumpriu  parte  de  seu  destino  e todos  nós, temos  inúmeras  estórias  para  contar: “sabemos  as  armadilhas  e os  segredos   desse  mar”. Vivemos  a  vida  ao  longo  desse   trinta anos  e  ainda  que  não sejamos mais  os  mesmos,  conservamos  trancafiado em  nossa  arca,  valores que  tiveram origem naquele  tempo  e  se  consolidaram desde então. “Há um menino, há  um  moleque, morando  sempre  no meu  coração. Toda vez  que  o  adulto fraqueja, ele vem  para  me  dar  a  mão”. A maioria daqueles que  nos  acompanharam,  hoje, pouco  sabem  de  nós. E qual é a pedra  de toque que  está  por  trás  dessa  iniciativa “Sal  da  Terra  forever”,  para  além  de qualquer risco de mitificação da [bela!] experiência feita? Apenas o desejo de reunir os dispersos, encontrar-se ali novamente para cantar as canções que cantamos  e nos  embalaram. O encontro com certos amigos pode gerar  sempre  uma  coisa bela, forte; um recorte de sons e  possibilidades; um  big-bang. Será então uma maneira de sonhar juntos outra  vez, semeando  as  canções  no  vento para  ver  crescer  nossa  voz, no que falta  sonhar. Tudo, graça do hoje, plantada ontem. Nossa celebração de trinta anos é, então, um apossar-se do passado, para seguir em frente, transformando o  presente, para chegar  mais  perto  do  futuro  que  desejamos. Não  custa  inventar  uma  nova   canção!  A meus amigos do  Sal e a todos  que  se reconheceram nas linhas e entrelinhas. À vocês,  dedico, ofereço, consagro!

Antônio Laért
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