JORNAL MILENIO VIP

Colunistas - Antônio Laért

Reflexões aos pedaços

Publicado na edição 144 de Setembro de 2014

 “A maior dor do vento é  não ser  colorido”.
Mário Quintana (1906-1994)

“O mau cheiro é um  perfume falsificado que  faz questão  de  parecer como  autêntico”.  

Carlos Drumond de Andrade (1902-1982 )

Qualquer pessoa normal que toma vaias e recebe xingamentos,  no fundo reflete  sobre  se  vale  a  pena  prosseguir. Questiona se seus propósitos estão bem colocados e é  interpelada pelo que poderia  ter obscurecido  suas  intenções,  a  ponto  de  vir a sentir  a  fúria  do  povo. Cogita  até  abandonar  o  posto. O político, não! Esse personagem parece passar incólume  por  qualquer  episódio, de  aplauso  ou  vaia. Que “arte” é essa  que dá  a quem  a  exerce uma  máscara  que   adere  tanto ao  rosto a  ponto de embotar  reflexões que  qualquer  um  faria ? De  que vale  a  cara  de  pau  num  rosto  talhado?

As palavras podem muito. Têm um poder extremo. Erguem reinos e fazem-no desabar. Edificam e destroem. Restabelecem  a  paz  e  fazem  a  guerra,  mas,  nada  é  absoluto.  Há momentos  na vida em que  elas  revelam sua total impotência. Diante do mistério, da magnitude de alguns acontecimentos e do  inefável, elas  falham,  tornando-se  indizíveis e  inaudíveis. É que a  reverência do momento  e o  calar no  silêncio fala e  diz  tudo. 

Um dia ainda vou escrever algo marcante que chame a  atenção  das pessoas. É por esse projeto que no fundo,   tenho me  preparado para  voar à  altura  desse  vôo. E  se  isso não  se  der e continuar a ser esse escritor medíocre de sempre? Não sei. Sei  lá. Talvez valha o meu empenho: pelo menos os buracos  da  minha  memória  estarão preenchidos e  as lacunas  da  minha  formação pavimentadas.  Resta saber para que? Para  morrer  comigo ? Para nada  acontecer? Coisa enigmática ... Um dia serei melhor e minha  inteireza se  revelará com  mais  vigor. Aí, quem sabe,  os  rastros luminosos  de  uma  existência serão  notados.

Tem horas que  tenho  que  fazer  a  advertência  de  meus  defeitos. Por que essa sede de tudo; essa vontade de preencher os  buracos  da  memória ? Donde  vem  a  ambição  de  saber  mais,  de anotar  tudo compulsivamente ? Talvez  tenha que  refrear essa  compulsão,  essa  doença  incontrolável de  chegar  a  algum  lugar  mais  longe. Minhas  anotações,  já  não  tenho  tempo  de  revisitá-las.  Por  que  então  continuar  a anotar,  guardá-las  e  tê-las  à  mão? Se a  mim  ainda  não  serviram,  a  quem  servirão ? O que  não  me  pode  ser  útil,  é  bosta.


Estou imerso no Tudo que é Nada. No Nada que é Tudo.  Questão  de  perspectiva.


Tenho encontrado  amigos  que  transitam  do  Direito  às Letras.  Buscam certamente o  que  também  procuro:  fugir  da  aridez das  palavras no  Direito e  encontrar  maior  perenidade  no  que  escrevem. Quiçá  consigamos  todos atravessar  esse  deserto. 

 

Antônio Laért
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