JORNAL MILENIO VIP

Colunistas - Neuza Carion

Decisões

Publicado na edição 144 de Setembro de 2014

Estamos, de novo, em tempo de decisão. A última decisão de que o país participou teve um desfecho nada bom para nossa imagem... Felizmente, a conseqüência não passou de orgulho ferido - e nem tanto assim. O que estava em jogo era um título que envaidece, porém não interfere no nosso dia a dia. Fosse outro o resultado comemoraríamos e em alguns (poucos) dias nem se falaria mais no assunto. 

Mas agora é diferente: o que está em jogo é a qualidade de vida de centenas de milhões se pessoas. Seria muito bom que nosso povo dedicasse o mesmo interesse que tem pelo esporte nacional aos assuntos relacionados às escolhas que faremos a seguir. E que o interesse fosse permanente, não só na época de eleições.


Esclareço: uma grande parte da população ainda enxerga os ocupantes de cargos eletivos como padrinhos e amigos do rei - quando não o próprio rei - que podem conseguir benefícios e favores, individuais ou coletivos. Os candidatos compram os votos com dinheiro ou promessas, os eleitores esperam que os eleitos cuidem de seus interesses e suas necessidades, que conheçam todos os problemas e ajam para resolvê-los como quem cumpre um contrato, mesmo quando já pagaram - em dinheiro. A decepção produz comentários ferinos e desabafos, nenhuma ação.


Acontece que não se tem nem mesmo uma noção das funções próprias de cada cargo. Não adianta pedir ao vereador para consertar a rua, trocar a lâmpada queimada do poste, ou tomar providências com relação ao atendimento à saúde, ou à coleta de lixo, por exemplo. Os vereadores, bem como deputados e senadores, pertencem ao Poder Legislativo e são eleitos para criar e votar leis e para fiscalizar as contas do Poder Executivo. O Executivo - prefeitos, governadores, presidente - é que cuida da administração da vida em sociedade e tem pessoas (não eleitas) responsáveis por cada setor: secretários, diretores de departamento, ministros.


Se temos um problema, devemos pedir providências a quem é responsável pelo setor, de preferência por escrito, protocolando um pedido, uma comunicação. Gestores não têm bola de cristal e nem é viável, nem razoável, manter inspetores para verificar se tudo está andando como deveria na cidade, no estado, no país inteiro. Claro que podemos pedir ao vereador (que também funciona como um elo da comunidade que o elegeu com a administração) para acompanhar ou reforçar nosso pedido, mas não vamos esperar que venha a nós, nem que faça o pedido em nosso nome. Até porque o órgão responsável está lá para atender ao cidadão. E se o vereador for se ocupar do interesse de cada cidadão, não terá tempo para exercer a sua função. Imagine como seria para um deputado, cuja atuação envolve uma área muito mais extensa e uma população muito mais numerosa! 


Aqui entra a questão do interesse permanente. Além de pedidos para solucionar problemas já existentes, podemos apresentar sugestões para evitar outros problemas e para aprimorar serviços. Podemos debater e decidir em grupo, de acordo com o interesse em questão: moradores de uma rua, ou de um bairro; pais de alunos de uma escola; portadores de necessidades especiais; usuários de uma linha de transporte público. Nós não temos que esperar, podemos e devemos antecipar. 


Ainda haveria muito a argumentar mas, por ora, creio que precisamos deixar de nos ver como pobres-coitados desvalidos, necessitando eternamente de ajuda. Em maioria somos cidadãos que trabalham, cumprem com seus deveres e precisam de respeito e de bons exemplos. Comecemos por respeitar a nós próprios, escolhendo quem mereça nos representar, acompanhando ativamente sua atuação e, dentro do possível, participando.

Neuza Carion
Conheça o perfil pessoal de nosso colunista ou outros artigos publicados por ele
Clique Aqui