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E AGORA? Por: Neuza Carion

Publicado na edição 145 de Outubro de 2014

Ainda que quisesse, seria difícil mudar de assunto: após escolher nossos representantes, dentro de alguns dias estaremos indo às urnas para o segundo turno das eleições, para eleger ocupantes para os cargos do Poder Executivo, gestores de nossa sociedade, governador e presidente. Então, exercido nosso sagrado direito e cumprido nosso dever constitucional, podemos tranquilamente aguardar as próximas eleições para fazermos nossa parte. Ao menos é o que tenho visto acontecer desde que tomei conhecimento dos tramites da política em nosso país. 

E tenho visto muito acontecer desde então. Foi no tempo de minha juventude que aconteceram importantes mudanças no comportamento da sociedade humana.  Foi durante minha adolescência que os jovens, ao redor do mundo, despertaram para a força que tinham e decidiram pensar e agir concretamente na condução de seu futuro.

Na verdade tais mudanças tiveram início ainda durante minha infância, quando a juventude do desencantado mundo pós-guerra assimilou e assumiu conceitos e valores diferentes do padrão até então vigente, começando nos anos 1950 no campo das manifestações artístico-culturais - na música, por exemplo - criando-se inclusive um mercado próprio que, com ajuda do desenvolvimento da também jovem tecnologia da comunicação – rádio, cinema, TV, indústria fonográfica – cresceu e se propagou numa velocidade e com um alcance até então impensáveis. Foi a descoberta dessa força de mercado um dos fatores que geraram a consciência de poder e autonomia que levou à emancipação dos jovens nos campos filosófico, religioso e de ideologias políticas e sociais, que eclodiram em manifestações nos anos 1960.


A nova consciência, acrescida da preocupação com as questões ambientais a partir dos anos 1970, se manteve durante o amadurecimento das gerações que se rebelaram inicialmente e foi transmitida às gerações seguintes, ao menos em parte. Porque aqui em nosso país esse foi um fenômeno que atingiu mais às classes média e alta, aos que podiam comprar e consumir cultura, frequentar teatros, museus e universidades. A maioria da população, formada pelas classes menos economicamente favorecidas, só conseguiu se fazer ouvir  décadas depois, já no final do século passado.  E só agora, já na segunda década deste século, é que uma parcela significativa, principalmente através da educação, vem desenvolvendo consciência e adquirindo conhecimentos que permitem participar das discussões e motivam a tomar atitudes que transformam.  Como votar com consciência, não vender o voto. E manifestar sua opinião sobre o que precisa ser feito e como deve ser tratada a res publica, a coisa pública.

Este é o ponto a que quero chegar. Tanto tempo se passou e ainda hoje, infelizmente, muitos ainda não sabem que “todo poder emana do povo e em seu nome é exercido”. A palavra “democracia”, de origem grega, quer dizer “governo pelo povo” e o conceito embutido nela é a proposta de que o povo deve manifestar sua vontade sobre o que deve ser feito para administrar o bem comum. 

Na Grécia Antiga os habitantes da “polis” - a cidade - se reuniam nas praças e decidiam diretamente, pela vontade expressa pela maioria, o que os governantes deveriam fazer para atender as necessidades da comunidade. Com o crescimento da população e a formação de Estados que reuniam várias cidades, esta forma de decisão direta se tornou impossível e os cidadãos (habitantes da cidade) passaram a escolher pessoas em que confiavam para representá-los nas tomadas de decisão para a condução da vida em sociedade. Esta a origem do sistema representativo de democracia.

Com o crescimento dos Estados e a formação de países - alguns de dimensões continentais como o nosso - governantes e representantes estão até mesmo geograficamente distantes da maioria dos governados/representados, não compartilham nem conhecem suas condições de vida nem suas necessidades. Deste modo, como tomar as decisões que beneficiem a maioria? Maioria esta que, mesmo na menor unidade administrativa, o município, envolve de alguns milhares a alguns milhões de pessoas, distribuídas por grandes extensões de território, com circunstâncias e condições socioeconômicas totalmente diversas. 

Esse distanciamento é reforçado pela idéia de poder associada aos cargos eletivos, constante até em sua nomenclatura: Poder Executivo e Poder Legislativo.  Além de “ter”, eles “são” autoridade. Isto gera ainda outra distorção: a autoridade, além de poder, também sabe mais que o cidadão comum e o uso corrente é que identifique, analise e decida o que deve ser feito para prevenir ou solucionar problemas da sociedade ou de grupos dela. Ao cidadão cabe votar e esperar pela concretização das promessas feitas pelo candidato, ou que algum dos eleitos se aperceba e tome as medidas necessárias para eliminar as adversidades.

Este é o ponto principal: de modo geral delegamos a terceiros as decisões e nem mesmo nos informamos ou debatemos com outros cidadãos afetados pelas mesmas dificuldades o que pode ser feito para solucioná-las. Mesmo quando sabemos o que pode ou deve ser feito, não tomamos a iniciativa de procurar, individualmente ou em grupo, quem está capacitado para agir. É como se o problema não fosse nosso.

São impressões e idéias que me ocorrem quando ouço as queixas pelas decepções sofridas pelos eleitores. É assunto para mais de metro de prosa e não cabe no espaço de um artigo. Foi só para abrir o debate, temos tempo e espaço para continuar nas próximas edições. Até lá!

 

 

Neuza Carion
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