JORNAL MILENIO VIP

Colunistas - Neuza Carion

Vontade do povo

Publicado na edição 146 de Novembro de 2014

Recebi esta semana um e-mail que divulgava notícia sobre a política nacional, se encerrava pedindo que fosse repassado e compartilhado, e continha a seguinte citação:

“O povo está dormindo. Nós estamos acordados. Nós, companheiros da internet, somos verdadeiramente unidos para fazer o que nunca antes foi feito neste país: ou a corrupção para, ou nós paramos o Brasil”.

Também pela internet tive acesso a um grande número de manifestações – em maioria contra - o artigo escrito por um jurista analisando o Decreto 8234/14, rejeitado pela Câmara dos Deputados, que institui os Conselhos Populares como parte da Política Nacional de Participação Social – PNPS. 

A propagação e o livre debate de idéias pelos meios eletrônicos já é fenômeno antigo, considerado o atual padrão de velocidade nas transformações da nossa sociedade. E é uma tendência irreversível e incontrolável.  O que despertou minha atenção foi a contradição entre as duas situações: na primeira a proposta é que a população – a conectada – se comunique, se mobilize e aja concretamente para impedir o que considera prejudicial. Na segunda, manifestam-se contra a criação de mecanismos que permitam a avaliação e o controle social sobre a administração da coisa pública. O curioso é que, pelo discurso, as duas partiram de grupos de origem muito semelhante: classe média/alta, bem informada e bem formada no que diz respeito a qualificação profissional.

Na verdade não há nada de novo: a proposta de ambas é mudar para manter tudo como sempre foi. Durante a campanha eleitoral, cheia de acusações mútuas, ficou muito clara uma divisão do país, não entre candidatos, nem entre partidos políticos, mas entre expectativas dos eleitores com relação a políticas de governo. Embora o “racha” tenha ficado perto do “meio a meio”, houve uma clara distribuição de votos a favor da candidata vencedora do pleito entre as populações de menor poder aquisitivo e de menor grau de informação. Acusou-se toda uma região do país de ser “culpada” pela vitória e manutenção de um partido no poder. Alegou-se que foi a vitoria da ignorância e do paternalismo.

Não quero dar minha opinião sobre pessoas e partidos, mas ficou claro o preconceito. A ideia de pirâmide social explica: a grande maioria da população brasileira é formada de pessoas com poucos recursos e pouca informação que entende ter sido beneficiada pela gestão atual – realmente foi - e que representa muito mais que 50% do total de eleitores, o que explica o resultado das urnas: é uma questão de números, não de ideologia. Nem todos os que fizeram essa opção são sem recursos e/ou sem instrução, como foi alegado.

O discurso de que as decisões devem caber tão somente aos escolhidos, seja pelos votos, seja pela fortuna, deixa de fora uma parte mais que significativa da população. Cheira-me a nazismo. Mas toda esta argumentação, na verdade, gira em torno da forma de democracia adotada no país: o sistema representativo, em que uns poucos decidem o que é melhor para todos, ou a direta, em que a população, através de instituições, como os Conselhos e escolhas diretas, como em referendos e plebiscitos, decide políticas e projetos e fiscaliza a gestão. De novo, deixo de manifestar minha opinião sobre qual seria a melhor forma, deixando claro que não sou a favor de nenhuma ditadura, nem da minoria, nem da maioria. E que, mesmo se viermos a decidir sem necessidade de representantes, não podemos dispensar o conhecimento técnico e científico para definir o que é o melhor para todos e como concretizar as medidas que mais aproveitem ao bem comum.

Não pretendo fazer apologia a nenhum tipo de revolução, nem de rebeldia. Já se vão cinqüenta anos desde que deixei de ser adolescente (embora afirme que meu coração nunca passou dos 18 anos), mas acredito que é preciso estar atento ao mundo ao nosso redor e aos sinais do despertar de uma consciência se manifestando e se espalhando, inclusive entre os cognominados “desvalidos” que, na linguagem da Física, mantêm o volume (quantidade) e crescem em massa (ou peso). Foi o que ficou expresso no resultado das eleições.

Para terminar, creio que ignorantes somos todos ao nascer, circunstâncias e interesses mantêm a ignorância de alguns (muitos), mas esta é uma doença que tem cura. E a cura desta doença leva, como tem ficado provado, à cura de outras: a miséria e a fome. O que, num circulo virtuoso, ajuda a prevenir e evitar o retorno da ignorância endêmica.

Creio também que o grande remédio é a educação, que já vem mostrando resultados – vide a participação nas manifestações reais e virtuais, políticas e culturais, de grupos que até agora se mantinham excluídos, porque também acredito que  “educar é ensinar a pensar”. E quem sabe pensar sabe escolher.

Neuza Carion
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