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Colunistas - Roberto Silva de Siqueira

Baia de Guanabara. Nossa Natureza

Publicado na edição 146 de Novembro de 2014

Participei de uma pequena aventura, no primeiro dia de novembro/14. De barco, subi o Rio Guapimirim até onde o homem impede a passagem com uma barragem para captação de água. Segundo o barqueiro, não fosse esta barragem, seria possível ir de barco até a fábrica da Schincariol em Cachoeiras de Macacu.

Retornamos e, passando por uma série de canais, chegamos ao Rio Macacu. De lá, entre um curral e outro, montado por pescadores, rumamos para Paquetá, onde pude observar grupos de golfinhos em frente à Praia da Moreninha. Daí, de volta para o Rio Guapimirim.

Fiquei impressionado com a preservação dos manguezais, os caranguejos, as aves, relatos de existência de jacarés e capivaras, câmeras escondidas para monitorar o meio ambiente e os saltos de robalos na frente do barco.

Não imaginava que ali, perto de casa, pudesse existir a exuberância de um ecossistema tão bem conservado. Um verdadeiro pantanal em nosso quintal.

Porém, foi de entristecer, ver a quantidade de peixes mortos e outros agonizando na Baia de Guanabara, no caminho até Paquetá. Uma mortandade noticiada durante a semana pelos meios de comunicação, até o momento desta matéria, ainda não explicada pelas autoridades.

O que me fez lembrar um texto da autoria de Arthur Ronaldo Pinheiro de Siqueira, morador de Mauá, falecido em abril de 2014, escrito logo após aquela tragédia do vazamento de óleo, pela Petrobrás, na Baia de Guanabara, atingindo em cheio as praias de Mauá, demonstrando como animais e pessoas são afetadas, quando o meio ambiente é por nós agredido. O texto chama-se MINHAS GARÇAS e abaixo transcrevo:

“Uma perna na beira d’água. A pequena onda passa e ela nem se move. A graça de sua postura é inigualável. Aos meus oito anos fico a apreciá-la sem muita emoção: estou mais do que habituado a ver muitas e muitas garças em minha praia. Elas estão sempre presentes na beira do mar, no céu azul, no morro atrás de minha casa, para o repouso.

Através do visor de uma máquina fotográfica começo a notar o seu equilíbrio em minha juventude. É contra a lei da gravidade. Suas asas são uma imagem sublime quando abertas. Sua brancura é divinal. Varam o ora e rápidos lances. Se jogam ao mar em mergulhos perfeitos. Voltam com sua presa: um pequeno peixe.

Mais tarde vejo seu gracioso andar num passo que é compasso, música, balé. Uma perfeita harmonia. Registro na super-8 seus volteios.

Elas são! Sim, elas são! - São a alegria quando estou triste. - São companheiras de minha melancolia. - São a vida!

Entardece! - Olho p’ro morro e poucos pontos brancos consigo distinguir contra o verde. - Elas estão sumindo. Meu coração indaga: - Cadê minhas garças? Estão indo embora. - Por que? - Nós não estamos cuidando delas. Destruímos seus ninhos. Acabamos com seu alimento. A praia não é mais a mesma. Meu coração também não. Porém, aos poucos, vamos recuperando o que fizemos desabar. Elas vão voltando.

Um dia passo no Anil e vejo um sobrevoo perfeito. Paro! Espero! E vem o mergulho singelo e certeiro. Vou para a missa das 6 horas, na Igreja de São Pedro. Olho o morro atrás da minha antiga morada. É uma beleza só. São centenas de rosas brancas destacando-se contra o verde. Elas estão de volta.

Jovem a mais tempo, penso que tudo na terra está voltando ao belo, a paz, a alegria, ao amor. Chego em casa com a alma transbordante do milagre maravilhoso da vida. Durmo o sono tranquilo de quem já vivenciou a presença de Cristo.

Hoje vou a praia e minhas garças estão pretas. Estão morrendo. Seu lar foi destruído. Nada mais resta para elas. Se foram. Sem um lamento, sem um adeus. Não tiveram culpa de que o bicho homem, em sua ganância, só pensa em seus lucros e vantagens. Não vê ele que perde muito mais do que a vida de uma ave! Perde sua própria razão de viver.

Quando poderei ver minhas garças de novo? Quando poderei ficar olhando para o morro e tentar contar os pontos brancos? Quando poderei viver!?!”

Sem mais o que dizer ...

 

Roberto Silva de Siqueira
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