JORNAL MILENIO VIP

Colunistas - Antônio Laért

Narrativa silenciosa

Publicado na edição 147 de Dezembro de 2014

"O silêncio do mundo é que é real. O nosso barulho, os nossos negócios, os nossos planos e todas as nossas fátuas explicações sobre o nosso barulho, negócios e planos, tudo isso é ilusão". Thomas Merton (1915-1968)

É no silêncio que podemos nos ouvir. É nessa quietude que se   revela muitas  vezes  uma  parte desconhecida  que  assusta.  Esse silêncio é um pouso que pode ser hostil, consolador, acompanhado, claro, epifânico. É um regaço, remanso, uma paz, um colo, sossego, tranqüilidade, tensão e calma. Necessário criar esse momento de mudez e esse tempo de nada falar. É indispensável essa pausa e espaço insonoro. A multidão de palavras e o som excessivo de pronúncias, cansam, aborrecem, pedem abstenção. É bom criar um novo espaço através do corte dos excessos sonoros aos quais nos  acostumados, para  obter um contato  mais  íntimo  com o tempo presente. Tratar com pompa e circunstância o silêncio, faz a diferença. Estamos imersos num excesso de barulho que dificulta a concentração em  qualquer  atividade intelectual, por  mais simples. Quanto mais perdemos o silêncio, mas ele significa  para  nós. Precisamos de pausa no  frenesi  que a  vida  se  tornou. Carecemos desse momento sublime e dessa  suspensão  do mundo para  guardar o efêmero. O silêncio parece  estender  o tempo  e  criar um estado  de  contemplação capaz de  integrar o  corpo,  seu  interior e  o  entorno  exterior. A evolução  dos seres humanos se  deu num ambiente silencioso, quando os sons  mais altos  eram  roncos, gemidos  e  gritos. Por longo tempo na história, não houve registro de  nenhum mecanismo criado para proteger os sensíveis  tímpanos humanos. O ruído exagerado de  hoje nada mais é que a falta de delicadeza. Crie e conceda-se esse luxo: fique em silêncio, como quem ouve uma sinfonia. Estabeleça esse corte de excessos no entretenimento. Silencie a boca, os sons emitidos, para alcançar o silêncio interno. Há espaços vazios que  precisam  ser  notados  e  observados: aprender a  nos  recolher  e  reaprender  a  ouvir o  silêncio, sem  apego, medo  e  aversão,  para  reapreciar  a vida. Ouça a  brisa leve,  uma  mosca  a voar,  uma  pena  a  cair.  Que nenhum som inoportuno perturbe os ares, para que o silêncio  possa  cantar  e embalar  a  canção  que  nos  estimula  e revigora. Basta. Nem mais um pio. Não  mais.

Antônio Laért
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