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Colunistas - Neuza Carion

É natal

Publicado na edição 147 de Dezembro de 2014

De repente é Natal. A gente nem se dá conta e de repente é Natal. Pensando bem, qual a importância disto, qual o seu significado, o que faz o mundo girar em torno de uma data?

Em princípio, nos dias de hoje a palavra carrega um mundo de significados: fim de ano, verão, férias, festas, presentes. E por tudo isto, muita agitação e correria que se estende e se mistura com o Carnaval.

Aliás, neste mundo globalizado “on line, full time” (se alguém não entendeu: em ligação direta, a todo tempo) tudo se mistura, inclusive o tempo. E já em outubro, mal iniciada a primavera, se vê na mídia propagandas e matérias sobre o Natal. E agora, ainda nem chegado o Natal, divulga-se os sambas e programas do Carnaval. Tudo no espírito do tempo, que tempo é dinheiro. E o espírito do Natal, ainda existe?  De que se trata, afinal?

Há alguns milhares de anos, muito antes de Cristo, na Europa (onde o Natal se originou) o tempo era de esperança pelo ressurgimento do sol e da vida adormecida pelo frio do inverno. Ao se converter, a Europa cristianizou suas celebrações e a festa do renascimento do Rei Sol tornou-se a festa do nascimento do Cristo Rei, incorporando os valores cristãos, celebrando os ideais de amor, doação, perdão, reencontro.

Durante muito tempo, até há pouco, seu símbolo maior foi o presépio, representação da Sagrada Família e sua simplicidade, desprendimento e humildade. Aos poucos, ao longo dos séculos, outros símbolos e tradições foram acrescentados, resultado natural da passagem do tempo e da expansão do Cristianismo para outros continentes, com o consequente contato com outras culturas. Mas nem uma coisa, nem outra, alterou a idéia inicial de celebração da Vida.

Até meados do século XX ainda se falava da magia do Natal. Era clara a noção da origem religiosa da festa, bem como dos valores que queria transmitir. Em certo momento da segunda metade do século passado, entretanto, houve mudanças que resultaram em grandes transformações sociais. Uma delas, a crença generalizada de que tempo é dinheiro, que tudo se mede pelo dinheiro, o que foi aceito da forma mais radical e irreversível, transformando a moeda, instrumento criado para facilitar a convivência, em objetivo e razão de ser - melhor, de ter... 

Hoje, em meio a uma crise da economia mundial, pergunto: o que realmente é importante? O que garante e dá qualidade à vida? As pessoas que não têm dinheiro, as civilizações que não usam dinheiro são infelizes? Vivem mal? Segundo nossos padrões, talvez. Mas ninguém come dinheiro. Ninguém namora dinheiro. Ninguém veste dinheiro. O dinheiro serve para se adquirir coisas e serviços que dão conforto, segurança, bem estar - é claro. Dinheiro é bom. Mas dinheiro é finito, a necessidade do dinheiro um dia não vai mais existir. Vida é infinita, através das vidas que geramos e o  amor é infinito, ainda que enquanto dure... Vida e Amor são razão de ser e estar.

Só para concluir: a agitação do comércio nesta época, que obscurece qualquer outro sentimento, teve uma nobre causa: representar a doação que Deus fez, de seu Filho, para salvar a humanidade. Dar e receber presentes são práticas saudáveis, gostosas, reconfortantes. Mas nada impede que em paralelo mantenhamos as outras tradições, as antigas manifestações culturais próprias deste tempo, que são lazer e educação. Nada impede que façamos mais que dar presentes. Até porque estaremos doando a nossos descendentes a continuidade e a permanência da espécie neste planeta.



(Texto originalmente publicado no informativo Magevest em dezembro de 2008)

 

Neuza Carion
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