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Colunistas - Antônio Laért

Deve haver algum sentido em mim que basta

Publicado na edição 148 de Janeiro de 2015

"O que é otimismo ? É  a  fúria  de  sustentar que  tudo  está  bem  quando se  está  mal”. Voltaire (1694-1778)

É  quase clichê,  lugar-comum dizer, “você  saiu  de  Magé,  mas  Magé  não sai  de  você”.  Ouço isso por vezes  e  não  me  incomoda em nada. É isso mesmo. E como poderia ser diferente,  se  foi  lá  que vivi  minha  infância e juventude, cresci, tenho família,  amigos,  morei  e passei  grande  parte  de  meu tempo, tendo  dado passos  significativos e empreendido vôos altos? Agradeço então àqueles que percebem isso nos recônditos de minha figura. Que reconhecem em mim aquele eterno garoto do interior. Confesso que essa percepção, me  comove,  agrada  e  me  explica. Jamais poderia deixar de dar a conhecer  essa  parte significativa de mim, esse núcleo duro de minha  identidade. Que bom que há quem note e mais que isso,  afirme. Agradeço pelo elogio e pela constatação. Essa percepção,  no  entanto, sempre me interpela a voltar, retornar,  estar ali. Mas, por estranho que possa parecer, não tenho reconhecido  mais  ali o  que  deixei, quando saí. Vejo uma outra cidade, mudada,  transformada,  diferente. Não é mais aquele o lugar em que vivi, andei, percorri.  Por vezes, parece tratar-se de uma outra  cidade. Sensação estranha, difícil de explicar. Se  estou aqui,  quero  estar lá;  se  estou  lá,  desejo estar  aqui.

Um misto de pertencimento e estranhamento. A infância e a juventude realmente são mundos distantes transformados pelo tempo. A  cidade  é que  mudou  ou  eu  que  sou  outro ? Talvez os  dois. O igual nunca  mais  terei.  A certeza da mortalidade  muda  a perspectiva  das  coisas. Aos  vinte  e  poucos  anos, não  há  como  sentir  isso; aos cinqüenta e  tantos  anos,  ficamos  restritos  ao  que  mais  nos  importa. E é essa constatação  que passa  agora  por  mim. Boa parte de mim vai  indo embora com  coisas  que  vou perdendo  pelo  caminho. Coisa  danada  e confusa. É realmente  uma  piada  séria  de  graça  zero. Só  fazendo  mesmo  uma  macumba  para  amarrar  essa  maldita  sensação. 

 

Antônio Laért
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