JORNAL MILÊNIO VIP - Sem-noção (2015)

Colunistas - Neuza Carion

Sem-noção (2015)

Publicado na edição 148 de Janeiro de 2015

A expressão se popularizou assim, adjetivada, significando a falta do conhecimento mínimo, indispensável. Traduzindo: é a ausência de raciocínio básico, a ignorância das normas elementares, a falta de senso comum, a subversão de valores. 

Parece estar havendo um surto epidêmico de falta de noção, em todas as faixas etárias, em todas as camadas da sociedade, sob vários aspectos. Como interpretar a declaração feita por um adolescente, assaltante, de que “este é o meu trabalho”? Como aceitar o argumento do pai que não impede que seu filho, ainda criança, se aproxime e coloque o braço dentro da jaula de um animal selvagem, sob a alegação, entre outras, de que o menino estaria habituado a lidar com animais? Como entender a expectativa infantil de perpetuação dos benefícios oferecidos pelo Estado como forma de inclusão social, geração após geração, se os primeiros beneficiados já deveriam ser preparados para prover suas necessidades e conquistar muito além do que os governos podem oferecer?  E que dizer de pais e responsáveis que “delegam” à escola toda a responsabilidade pela educação desconsiderando, inclusive, que o aprendizado também depende do esforço do aprendiz? Sem noção de limites, sem noção de perigo, sem noção de oportunidade e de responsabilidade.

Não tenho elementos para afirmar, mas acredito que, mesmo em escalas diferentes, o problema seja global. E mais uma vez retorno à questão do afastamento e desconhecimento dos mecanismos e das leis naturais, da aplicação das leis de mercado e da tecnologia às relações sociais e com o ambiente como, talvez, a principal causa desta inadequação.

Culpa da educação? Sim, mas não da Escola.  Acredito que são conceitos e valores sugeridos mais que enunciados, por meio de exemplos, atos e atitudes, de forma verbal ou não. Acho que a celeridade e a facilidade oferecidas pela tecnologia alteram a percepção, a compreensão e aceitação das reais condições e necessidades do ser humano e do ambiente que o circunda e contém. Da mesma forma a mercantilização de bens e valores do campo da Moral. É uma questão das sociedades como um todo, começando pela família, passando por todos os grupos com quem se tem contato e incluindo os meios de comunicação de massa, poderosos formadores de opinião. 

É preciso saber que há limites que não podem ser ultrapassados – como os do direito alheio – e outros que devem sê-lo – como nossa ignorância e nosso medo. É preciso que a mente sã e o corpo são usufruam das possibilidades oferecidas pela tecnologia, mas não se limitem a ela, nem por ela. É preciso que se entenda que talvez tudo tenha um preço, mas nem tudo pode ser comprado. É preciso que se ensine e se aprenda não só o “que”, mas também o “porque”, o “como”, o “quando”, o “onde”. É preciso ter paciência e determinação: há coisas que não podem, outras que não devem, outras que não precisam ser rápidas. Algumas são melhores quando não são rápidas.

É preciso, enfim, SER, antes de ter. É preciso saber que alegria e felicidade estão também em pequenas coisas e momentos fugazes, e que as fontes de prazer não precisam se restringir a um só sentido, a um só sentimento. É preciso perceber que o maior poder está em saber. E é preciso amar como se não houvesse amanhã.

 

Neuza Carion
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