JORNAL MILÊNIO VIP - De dentro da gaveta da alma da gente

Colunistas - Antônio Laért

De dentro da gaveta da alma da gente

Publicado na edição 149 de Maio de 2015

"Tudo o que muda a vida vem quieto,  no escuro,  sem preparos  de  avisar "
Jo
ão Guimarães Rosa (1908-1967)

"O tempo corre veloz e a vida escapa das  nossas  mãos. Mas  pode  escapar como  areia  ou  como  semente"
Thomas  Merton (1915-1968)

A  vida  é  maravilhosa,  mas  por  vezes  temos  a  sensação de  que  a  carga  do  dia-a-dia  pesa  mais  do que  a  gente  pode aguentar.  Nessas horas, cada um  tem  uma  fórmula  para  escapar  da  loucura.  Na lista de ‘remédios’ constam: futebol,  corrida,  música, caminhada,  dança,  meditação,  silêncio... Essas  ocasiões  reclamam e supõem tempo  livre  para a  contemplação  e  emancipação do  nosso  ser num lugar em  que  as liberdades, oportunidades, capacidades e  reais potencialidades tenham  a possibilidade  de   ampliar,  florescer,   espraiar-se, ir  além  da  força  que nos  aferra ao  chão  da  realidade, das  coisinhas  miúdas.  Buscar momentos que  tenham  força  estética e que  ofereçam  experiência  poética, intelectual,  física a quem  precisa. É quando se  faz  necessário  deixar   alçar vôo, o  pássaro  que  vive  em  nós.  E esse  sair  da  realidade  para  ir  além,  ali,  em  outro  lugar  e voltar, é  o  que   nos mantém  normais,  no  equilíbrio  e   em harmonia.  Fugir do  massacre  do  cotidiano para  esconder-se  no  cinema; desligar-se da  engrenagem assistindo  uma  palestra: é  sob  a  aparente estranheza  desses  comportamentos que  se  dá a  cura de nossa  loucura. Assim é que  vamos  nos  fazendo  e  refazendo continuamente,  nesse  eterno  vir  a  ser. Encontrar a destreza com o  tom e a emoção, o gesto, a expressão,  o movimento, a  imersão  no  ar  contemplativo da  sobriedade  simples,  liberta,  faz  renascer, suscita  e ressuscita  o  melhor  em  nós.  É um reencontro com aquela  eterna criança  esperta e  curiosa  que  existe no  fundo  de nosso abismo,  para  voltar  a  ver  tudo com aquele  pasmo  essencial. É uma coreografia em  que  o  concentrar-se é distrair-se; o esquecer é música e  a  intimidade  é uma distância. Esse inspirar e expirar é uma pausa fundamental.  Com  esse  auxílio  luxuoso  e um  pouco  de  arte,  continuaremos  fazendo  proezas.

Antônio Laért
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