JORNAL MILENIO VIP

Colunistas - Ivone Boechat

Vida plena e meio ambiente

Publicado na edição 150 de Junho de 2015

O ser humano tem o sabor do oceano na lágrima. Na composição química do seu corpo estão todos os preciosos metais que compõem a Natureza. Ele tem a mesma proporção de líquido do Planeta Terra no seu corpo. Na formação de sua estrutura física e espiritual estão presentes os estados sólido, líquido e gasoso: natureza e homem são Universo - único verso de Deus!

Para Roger Garaudy “Crer que somos separados é ilusório. Os homens são como galhos de uma mesma árvore, ou como ondas de um mesmo Oceano”.


Roger denuncia na sua obra Apelo aos Vivos, que “O homem violou três infinitos. O infinitamente pequeno: ao domar o átomo e liberar a sua fantástica energia. O infinitamente grande: ao transpor as barreiras da Terra, viajando pelo Cosmo. O infinitamente complexo: através da Cibernética”. Muito angustiado pelo avanço tecnológico, sem compromisso com a vida, ele desabafa: "Optar pela energia nuclear é assassinar nossos netos".


Xamã, um pajé americano, diz que ensina assim ao seu povo: primeiro, a arte de escutar; segundo, que tudo está ligado com tudo; terceiro, que tudo está em transformação; quarto, que a terra não é nossa, nós é quem somos da terra.


Jesus exclamou: “Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam... nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles” - Mateus 6: 28. O Mestre aponta para a serenidade das flores do campo como alternativa para a busca do equilíbrio ecológico espiritual. As flores dão nomes a mulheres, homens, lugares, rios, países. As flores são alimentos e curam, também! O equilíbrio da alma vai se conseguir na medida em que brotarem nos canteiros do respeito as sementes da paz interior, da compaixão por si mesmo, pelo outro e pelo Universo.

Albert Schweitzer afirma: "Quando o homem aprender a respeitar até o menor ser da Criação, seja animal ou vegetal, ninguém precisará ensiná-lo a amar seu semelhante".

Há urgência em reflorestar ideias, reciclar comportamentos, irrigar emoções, adubar o terreno dos perdões... Podar galhos ressecados de qualquer temor, aplainar o olhar social buscando os excluídos, onde for; iluminar, oxigenar e plantar; plantar sementes selecionadas de amor.

O homem busca, em desespero - mas antes tarde do que nunca, a preservação do que sobrou neste Planeta. Não é impossível, até porque atitudes simples têm o poder de mudar o rumo de coisas importantes. Mas eis o impasse: por que não se começa a educar para o equilíbrio da ecologia humana? Quanto custa o esforço por um abraço, por um sorriso, pela demonstração de afeto?

A Escola gasta quase todo o tempo destinado a ela, resolvendo equações de primeiro e segundo graus e a criança vive refém de deveres de casa. Não há tempo nem espaço para brincar, ao sol. Dirão muitos que a concorrência exige tudo isso na corrida desenfreada ao mercado de trabalho: passar nos concursos, brilhar nos vestibulares e arranjar emprego estável! Nessa guerra da sobrevivência só quem sabe mais equação e rebimboca da parafuseta alcança o sucesso. Será? Claro que não. O maior desafio da educação é ensinar a viver e preservar a vida!

Preservar é insistir na luta pela vida, é ajudar a garantir às gerações a dádiva de viver! O cidadão comprometido com a vida é capaz de interagir e ajudar a deter o poder de destruição ao redor, mesmo sem ter nas mãos as prometidas verbas públicas. Ele pode exercer a cidadania de uma forma pacífica, inteligente e gratuita: indignar-se.

Para preservar é preciso formar cidadãos sentinelas da vida, que saibam intervir no momento certo para se evitar o desperdício, o mau uso, o abuso, mas, sobretudo, formar o educador do meio ambiente, capaz de ensinar “a tempo e fora de tempo” como viver sem deixar um rastro de morte por onde passa.

É preciso formar educadores para assessorar a sociedade na administração do que herdou. O Brasil pode dar ao mundo um grande exemplo de fraternidade propondo um programa de reciclagem de vidas e a restauração do homem. A Família, a Igreja e o Estado, juntos, podem implantar um novo estilo de vida.

Quando o homem desperdiça água, luz, árvores, pensamentos positivos, oportunidade de preservar-se, inteligência para interagir na preservação do Planeta, está adubando com a própria lágrima da irresponsabilidade o terreno da morte para se destruir. Quando distribui lixo político, social, espiritual, emocional, e toda a espécie de ações inconsequentes, está infectando o espaço, semeando transtornos. São crimes hediondos contra a vida.

A juventude recebeu de herança dos maus governantes, dos currículos indecentes, dos “educadores dormentes” e dos pais omissos, um grande e riquíssimo patrimônio... mal administrado, mal conservado, mal amado.

Quando o homem reflorestar ideias, podar os galhos secos da ira, regar as raízes no manancial da fé, vai colher os frutos de um mundo oxigenado de amor. Aí, sim, o homem equilibrado vai equilibrar o Planeta!

É urgente que se enfrente o maior desafio de todos os tempos: formar os valores que vão substituir as mentes destruidoras por aquelas que têm sensibilidade para amar e preservar. O slogan poderia ser: adote o seu planeta como bichinho de estimação.

É um  grande desafio educacional.

Ivone Boechat
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