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Colunistas - Antônio Laért

Papai: barro e espírito

Publicado na edição 150 de Junho de 2015

Para quem  ama,  não  será a ausência a  mais  certa,  a mais  eficaz,  a  mais  intensa,  a  mais  indestrutível,  a  mais  fiel  das  presenças ?”. Marcel  Proust (1871-1922)


“Aqueles que passam por  nós, não vão sós, não nos  deixam sós. Deixam um  pouco  de  si,  levam  um  pouco  de  nós”. 
Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944)


Perdi meu pai  no ano de  2010. Desde  então,  um longo  silêncio  se fez  diante  de  mim.  O que  sobrou dele  e  dos  resquícios do  que  foi estão  presentes  e  simulam sua  existência. Nunca mais o terei,  porém, ao  alcance das  mãos. Por vezes resta só  a  ausência, um  oco, o vazio. Uma procura  em  vão  para  além  da  memória,  nos  lugares  e  cantos  que  só  nós  conhecemos. Olho o mar, as ondas  e  não  o  encontro.  Existe apenas um silêncio absoluto que feito mistério a tudo corrói. Sem  ele muitas coisas perderam vida. Da abundância, transitei para a escassez de significados, restando apenas  o  vazio  que  ficou  dos  gestos  que  não  fazes, das  palavras  que  não  dizes,  das  brincadeiras  que  não  divertem, do  sorriso  que  não  mais  alegra,  do  olhar  que  já não  vejo. É sobre o nada que o tudo que sobrou se sustenta. Em verdade, só o silêncio parece contornar a morte. Como água, tua ausência, penetra os poros, permeando os espaços vazios. Há em mim um insistente desassossego; uma soledade, na impossibilidade de diálogo e falas monossilábicas. Que falta você me faz. Ficaram doces lembranças: gostos, sabores, ocasiões, ensinamentos,  cheiros, datas, lições, festas, odores, sabedoria. De resto, uma asfixia pela ausência de palavras não correspondidas. Mas, como na canção, espero sempre para ver se  você vem; não o troco nessa vida por  ninguém. Eu o amo. Eu o quero bem. Amálgama, estranheza, aurora  possível  ou  fim? Não é preciso ter pressa, os rios sabem isto. Um dia, chegará o estágio em que essa ausência será presença, satisfação, plenitude, totalidade. Quando os pássaros cantarem depois da  tempestade e a vida  renascer  da  cinza  das  fogueiras,  então  esse dia virá. Aí  terei  subido  um  tom  na  realidade.  

 

Antônio Laért
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