JORNAL MILÊNIO VIP - UM OUTRO OLHAR SOBRE O MEDO

Colunistas - Neuza Carion

UM OUTRO OLHAR SOBRE O MEDO

Publicado na edição 84 de Setembro de 2008

Já que abri a questão, melhor é que a esclareça: retomando a colocação sobre uma ruptura na sociedade humana, pego um conceito da Geometria para chegar ao que, num exagero, chamo de “sociedades paralelas” - as que vão, lado a lado, ao infinito, sem jamais se tocarem. Ou melhor, sem trocarem. Convivem, se vêem, se falam, mas não se conhecem, não se enxergam, não se entendem. E de modo geral não se aceitam. Nenhuma novidade: desde sempre houve diferença entre os grupos sociais, que desenvolveram características próprias em decorrência de suas peculiares circunstâncias de espaço (ambiente) e tempo (história) - ou seja, sua cultura. É natural que diferentes circunstâncias gerem visões de mundo diferentes e criem regras de convívio diferentes. E é compreensível que estas diferenças, ao entrarem em contato, causem estranhamento e levem à intolerância. Mas não me referi a diferenças entre povos e nações. Falo de pessoas no mesmo país, na mesma cidade, onde grupos agem, reagem e interagem com outros grupos, mas não sentem que pertencem a uma mesma sociedade. É o que Zuenir Ventura chamou de Cidade Partida. É o que Monteiro Lobato retratou em seu Jeca Tatu. No Rio, é o choque do morro com o asfalto, continuação do embate entre casa grande e senzala. Temos o exemplo dos migrantes reunidos em guetos nas grandes cidades, ou acomodados em suas periferias. Mesmo em contato próximo com outros parâmetros, seu olhar sobre o mundo permanece o mesmo, suas crenças, valores e padrões, mantidos e reforçados pela convivência com novos migrantes e com os excluídos locais, são transmitidos aos seus descendentes e estes os mantêm, ainda que ocasionalmente atenuados, por muito tempo. Ao cidadão das classes média e alta, por exemplo, sempre escandalizou (ao menos pro forma) o comportamento de outras classes, a manifestação desinibida de instintos básicos (sejam expressões de Eros ou Tanatos – Amor ou Morte), o desprezo a protocolos. Ou seja, a sexualidade explícita, a violência, a falta de polidez. Além da atitude dependente. Ao cidadão que teve menos refinamento em sua formação incomodam, por exemplo, além da postura de superioridade do outro grupo, as manifestações de requinte - “frescura” - que ele desconhece e são inúteis na batalha diária. Suas normas são outras, sua motivação é a sobrevivência. Não lhe sobram tempo nem disposição. Parece preconceito? É preconceito. De ambas as partes. Parece também que estou limitando o conceito a, basicamente, uma diferença de poder aquisitivo, mas em sociedade tudo acaba sendo conseqüência das relações de poder (em todas as suas formas) que desde sempre separaram os que decidem dos que obedecem. Ou os que sabem dos que os seguem. Porque o poder não é “ter”, o poder é conhecer: pode mais quem sabe mais. O resto é conseqüência, inclusive a riqueza. Ainda nenhuma novidade. Se nada disso é novo, então por que falar de crise sem precedentes? Porque sem precedentes é a dimensão da crise: falamos de populações de milhões de pessoas que ao mesmo tempo assistem e protagonizam uma transformação tão veloz que não há tempo para que seja totalmente compreendida e absorvida. Falamos de informação num volume inimaginável sendo levada sem filtragem, em tempo real, a todo o planeta ao mesmo tempo, atingindo indistintamente a quem tem poder de análise e a quem mal consegue identificar seu próprio nome. Até a entrada na era industrial as mudanças nas sociedades se estabeleceram num ritmo natural, ao longo de muitas gerações. No século passado, entretanto, o intenso - e rápido - avanço da Ciência e da Tecnologia permitiu à humanidade experimentar, num curto intervalo de tempo, a passagem tanto da tração animal à era espacial, como da informação restrita a poucos privilegiados, à inclusão digital. Mesmo nos locais mais isolados, agora facilmente acessíveis, os atuais meios de transporte e de comunicação levam pessoas e informação, pondo em contato realidades tão diferentes entre si, que é natural que pareça difícil a cada uma conceber e acreditar na outra. Conceitos não mudam nem se incorporam da noite para o dia. A mim parece claro que esta troca incontrolada de informações está, ainda que não da forma ideal, produzindo um resultado: cruzar as paralelas. Também não é novidade. A História é um longo desfile de exemplos de intercâmbio e aculturação. Este atual movimento, porém, que envolve volume e velocidade, é de difícil controle. Podem-se prever as conseqüências do impacto (frequentemente desastroso) que mudanças bruscas trazem aos grupos incapazes de assimilá-las ou desinteressados em absorvê-las. Meu ponto de vista se dá a partir de uma posição definida, já que como todo mundo sou produto de um meio, com o qual me identifico. Por circunstâncias e escolhas, porém, tenho convivido com pessoas de realidades e culturas muito diferentes da minha origem e já não me parece tão difícil perceber, aceitar e me adaptar a idéias e costumes diferentes dos meus. Talvez por isto consiga ver, com clareza, os caminhos tomados pela humanidade. Às vezes com susto. Vejo um movimento de inversão de valores, um pensamento híbrido, que mistura tradição já sem sentido, com liberalidade inconseqüente, sem orientação (educação) e sem controle (segurança), distorcendo conceitos, criando suas próprias regras, tudo se permitindo e se justificando por si próprio. Pois não basta conhecer o novo, é preciso compreendê-lo. Vejo conceitos da massa que até aqui se absteve do pensamento abstrato (a dos instintos básicos) sendo incorporados como padrão pelas gerações mais novas, inclusive pelas ditas elites, embora o mais desejável deles - a solidariedade – não esteja incluído no pacote. Vejo também que não há nenhuma ação em curso para se trabalhar estas questões. Há, talvez, um princípio de percepção. Vejo muito mais coisas, que o espaço de que disponho não me permite abordar agora, fica para a próxima. Quem sabe alguém queira ajudar no raciocínio e fazer deste monólogo um diálogo? Por enquanto sigo com susto (mas sem medo...) desejando em acordo com o morador de comunidade, autor da frase usada no título lá em cima. Neuza Carion

Neuza Carion
Conheça o perfil pessoal de nosso colunista ou outros artigos publicados por ele
Clique Aqui