JORNAL MILENIO VIP

Colunistas - Dulcimar Menezes

“O ARGUEIRO, A TRAVE E OS EXCOMUNGADOS....”

Publicado na edição 90 de Março de 2009

“Cânone ou Cânon – Conjunto de regras sobre um determinado assunto. Deriva da palavra grega Kanón, que designa uma vara utilizada como instrumento de medida”.

Acompanhem comigo: Criança de 9 anos, após ser estuprada pelo seu padrasto, que já a molestava sexualmente desde os 6 anos, fica grávida de gêmeos. A mãe da criança juntamente com a equipe técnica, após avaliação cautelosa e responsável sobre a vida da criança violentada, decide por interromper a gravidez. O Arcebispo de sua cidade, depois de intervenção fracassada cujo objetivo seria impedir que a gravidez fosse interrompida, por autorização da justiça, decide excomungar os médicos e a mãe da criança.

Quem não se chocou com esta história? Quem não se sentiu agredido com toda violência que tal fato traduziu em toda a sua extensão? Porém, todo o evento suscitou muito conteúdo para mais uma reflexão sobre a condição humana. Particularmente, a mim, provocou muitas inquietações e dúvidas que venho compartilhar neste espaço VIP.

Primeiramente gostaria de esclarecer que esta reflexão tem como pilar um princípio fundamental do Código de Ética dos Psicólogos, que nos obriga a trabalhar visando “promover a saúde e a qualidade de vida das pessoas e das coletividades e contribuir para a eliminação de quaisquer formas de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e OPRESSÂO”. E a definição mais difundida de saúde é a encontrada no preâmbulo da Constituição da Organização Mundial de Saúde, onde é dito que “saúde é um estado de completo bem estar físico, mental e social”. É uma definição sem dúvida incompleta e traz em seu bojo implicações legais, sociais e econômicas dos estados de saúde e doença. Porém, é ainda o principal fundamento do Cânone dos profissionais de saúde.

Portanto, vamos deixar claro uma coisa: é profundamente injusto imaginar que a decisão da equipe de profissionais responsáveis pelo caso foi levianamente fácil e sem o menor comprometimento com a causa de todas as vidas em questão, como se fossem assassinos impiedosos!

E o que será que passou no coração (provavelmente já carregado de culpa) desta mãe, quando o médico lhe disse que “se a gravidez continuasse o dano seria maior. O risco existiria até de morte ou de uma seqüela definitiva de não poder mais engravidar” (Dr. Olímpio Moraes)? Julgar é fácil, né, gente? Como bem traduz um ditado popular: Pimenta nos olhos dos outros é refresco!

E aí vem o Arcebispo e os excomunga, médicos e mãe ( muito embora a CNBB tenha vindo à público dizendo que não foi bem isso que eles fizeram, mas todos nós fomos testemunhas...).

Bem, neste momento começam as minhas grandes dúvidas. O que significa ser excomungado? Na minha ignorância busquei esclarecimento e aprendi que segundo o Direito Canônico Eclesiástico (e a minha fonte foi o site oficial do Vaticano) que “alguns pecados particularmente graves são passíveis de excomunhão, a pena eclesiástica mais severa, que impede a recepção dos sacramentos e o exercício de certos atos eclesiais (cf.can.1331. can.1431-1434). Neste caso a absolvição só pode ser dada pelo Papa, pelo Bispo local ou por Presbíteros autorizados por ele. (can.1463).” Para tal necessário se faz arrependimento do excomungado.

E as minhas dúvidas e inquietações só aumentaram...

Digam-me, em que a Excomunhão contribuiu para o esclarecimento e a consolação de todos os envolvidos neste episódio, trágico e devastador em toda a sua extensão?

Que alguém nos esclareça, por caridade, quais os efeitos de tal medida e nos convença que não se trata somente de uma ação autoritária e vazia, com nítida pretensão de castigo e abandono do espírito errante à sua própria sorte. Apontem-nos onde a mensagem de Jesus Cristo orientou tal atitude e como tal conduta pode estar de acordo com a idéia de Misericórdia de Deus! Mas, por favor, não subestimem mais a nossa inteligência com argumentos dogmáticos, sem fundamentos fáticos ou lógicos.
Devo esclarecer como especialista do comportamento humano que Arrependimento e Perdão são condutas afetivas que na maioria dos casos não ocorre instantaneamente, e sim como resultado de um processo de reflexão e tomada de consciência sobre o próprio comportamento. Obviamente o Reverendo de Olinda não está a par deste fato. E se está, neste caso infeliz, esteve muito mais preocupado em bater o já reconhecidamente equivocado “Martelo das bruxas” medieval, do que amar e salvar almas perturbadas, promovendo, assim, a Comunhão entre homens.

E não me venham dizer que estou fazendo apologia ao aborto porque não é verdade! Sou contra o aborto e sei de suas cruéis seqüelas senão físicas, certamente psicológicas, morais e espirituais. Condenar à morte física é injusto (e criminoso em alguns casos) e eu concordo plenamente. Mas, eu pergunto, condenar à morte moral e espiritual é válido?! Será que esta menina e esta mãe poderão se espelhar na atitude que o clero teve em seu caso para se tornarem capazes de perdoar o seu agressor e alcançar a paz? Não há cura psicológica sem perdão. Não há perdão sem compaixão. Não há paz sem perdão. E, finalmente, “A PAZ É FRUTO DA JUSTIÇA” (Is 32,17).

Numa carta de São João, contido na Sagrada Escritura, encontramos o seguinte trecho: “Meus filhinhos, não amemos de palavras, nem de língua, mas por obra e em verdade. E nisto sabemos que somos da verdade, e diante dela asseguraremos nossos corações. Sabendo que se o nosso coração nos condena, maior é Deus do que o nosso coração, e conhece todas as coisas”.(1Jo 3, 18-20).
Sendo Deus maior do que o nosso coração, com certeza Ele também será maior do que qualquer julgamento humano carregado de raiva e vingança. A propósito, se nos perguntássemos como Jesus, pessoalmente, conduziria toda a questão, com certeza não encontraríamos como resposta o ABANDONO do ser vivente no turbulento e perigoso mar psíquico dos próprios erros.
Obviamente a minha opinião não será compartilhada por muitos. Respeito a todos, mas não me posicionar claramente sobre este assunto seria pecar por omissão segundo os Cânones da minha consciência. Congratulo àqueles que nesta circunstância tão polêmica não encontram um confortável muro para sobre ele permanecer e assumem publicamente os próprios valores.

Faltou analisarmos um detalhe: O padrasto não foi excomungado. O pecado dele não foi contra a vida, foi só contra a castidade. Agora imaginem vocês, caríssimos leitores, qual não foi a minha surpresa quando, como resultado de minhas pesquisas, descobri que um outro pecado considerado grave que, como o aborto, é passível de Excomunhão Latae Setentae, ou seja, sentença julgada, sem julgamento ou ponderações, é quando “um sacerdote absolve um cúmplice em pecado contra o sexto mandamento do decálogo ( cân.1378, parágrafo 1)”, a saber, não pecar contra a castidade. Isto me faz lembrar uma frase de Jesus onde Ele pergunta: “Por que vês tu, pois o argueiro no olho do teu irmão e não vês a trave no teu olho?” (Mat 7, 3). Que Deus tenha piedade de nós e receba a nossa miséria em seu coração.

Dulcimar Menezes
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