JORNAL MILENIO VIP

Colunistas - Neuza Carion

Bucomelancólica

Publicado na edição 152 de Agosto de 2015

“Hoje, em meio à minha horta 

E à tarefa de arrancar o mato 

Que tomou conta dos canteiros,

Tomei consciência de que, hoje,

Faz um ano que você se foi.

Vendo os pés de abóbora, jiló, maxixe, pimentão e outros mais,

Carregados de frutos e vida,

Lembrei do pé de banana-maçã

Que plantei para você

E você nem provou.

O açaizal também.

E minhas poesias, que você nunca leu.

Hoje, em meio à minha horta,

Lembrei das histórias de sua vida

Que você só me contou

Quando já não havia tempo

E do dia que dediquei a você

Tarde demais...

Em meio à minha horta

Senti tristeza pelo jardim que eu ia fazer 

Para você tomar sol de manhã, 

Lendo o jornal, 

E por suas esperanças

Que não concretizei.

Chorei, pai, pelos bons momentos

Que jamais teremos

E o carinho que desperdiçamos

Por ineficiência ou medo.

Hoje, pai, que curioso:

Uma galinha pôs um ovo imenso

E minha filha exclamou:

- Foi o vovô, mãe, que fez isto!

E através desta bobagem

Eu quero crer, pai, que onde esteja

Você entende e, talvez, aceita

Esta vida que você não quis pra mim. ”

Escrevi o texto acima no dia em que se completou um ano de morte do meu pai. Ainda hoje, quase trinta anos depois, me emociona. Após decidir publicá-lo, pensei que seria melhor deixar claro que é uma lamentação, mas não se trata de uma queixa. 

A intenção não é fazer uma “DR” póstuma, nem seria o caso: nossa relação era muito boa, sem tensões, muitas e boas são as lembranças do cuidado, do carinho e da confiança entre nós. Mas ao me mudar para cá, longe, sem os atuais meios de comunicação à distância, deixamos de ter a convivência freqüente que tínhamos. E também optei por um estilo de vida diferente daquele a que ele estava habituado e me transmitiu.  Além disto, ele era de um tempo - e de um meio - em que não era “permitido” aos homens expor sentimentos ou demonstrar sensibilidade, impunemente. Esta é uma conquista recente, ainda em construção.

Minha intenção, na verdade, é dizer: não desperdicem tempo! Não deixem de usufruir o privilégio de estar e trocar com quem realmente importa e se importa.  Não deixem que qualquer circunstância os prive da proximidade, mesmo que não seja física, de quem faz diferença em suas vidas! Não abram mão do amor e todas suas manifestações, dando ou recebendo! Não deixem de dizer, a todo tempo, o que é preciso ouvir e permitam-se ouvir o que aqueles que os amam têm a dizer, mesmo que isto importe em ocasionais divergências! 

Hoje, sei que a vida é curta, o tempo não pára e não volta atrás, as oportunidades perdidas muito raramente se repetem e é melhor a saudade dos momentos vividos com verdade e intensidade, que a aridez de um tempo sem memórias...

 

Neuza Carion
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