JORNAL MILÊNIO VIP - A solidão de todos nós

Colunistas - Antônio Laért

A solidão de todos nós

Publicado na edição 153 de Setembro de 2015

"Reserva e solidão são valores que  pertencem à própria essência da  personalidade. Uma  pessoa  é  pessoa à  medida que  possui  um segredo e constitui uma  solidão que  não  pode  ser  comunicada  a  nenhum  outro"     Thomas Merton (1915-1968)

"Não é bom  que  o  homem esteja só"(Gen. 2:18),  disse Deus ao  criar a mulher,  também para  espantar a  solidão. Ser no número  singular, pode em verdade  tornar  as  coisas  mais  graves,  se  a  pessoa  só,  não  conviver  mesmo bem com  a soledade. Pode ser causa de  depressão,  tristeza,  melancolia,  nostalgia. Esse vazio total pode ocasionar reações imprevisíveis. Estar com nada e sem tudo, desamparado, é para poucos. Existem pessoas vocacionadas à solidão: nesse espaço de silêncio e quietude encontram sua alegria e realização num encontro mudo  com  um outro. Também existe a solidão no solo de um instrumento na orquestra; a solidão do  corredor  consigo; a solidão  de  um  barco  sozinho  no  mar; a de  um  pássaro  no  azul imenso do  céu; da  onda  repetitiva  lambendo   a  areia da  praia; do  pescador  à  espreita  da  fisgada  do peixe;  de  quem  escolhe  viver  sozinho; a  solidão do  goleiro desolado que  toma  um  gol;  a  solidão em  meio  à  multidão;  a  solidão  acompanhada; a   de  quem  escreve  no  papel  em  branco; a   solidão  dos  números  primos. Existe a solidão de um momento,  quando, por mais  que estejamos cercados de  gente, em  verdade estamos sós. A solidão pela constatação de  que ninguém  poderá  fazer  aquilo  por  nós. Estar só por necessidade de reequilibrio. Estar só para  evitar  ouvir  o  que  não  se  quer, guardar silêncio, ficar calado, paciente, isolado na alma. Estar em solidão, abandonado, desposado, refugiado, segregado, esquecido, recluso; em deserto, no recato, no  ermo,  num  abismo,  no  vale  de  lágrimas, posto em sossego,  na  intimidade, afastado. Tudo isso é solidão. A solidão as vezes  faz  bem;  as  vezes,  nem  tanto. Provoca uma série de encontros e desencontros com nós  próprios. Mas apesar disso, a solidão não é triste não. Faz parte de um espelho em que  temos  que nos  ver  e  contemplar  para  seguir  em frente. A solidão não se confunde com o silêncio: pode ser sonora ou silenciosa, depende de quem a exercita. Não podemos desconhecer o  valor  de  nossa  própria  solidão. É desse lugar de isolamento que construímos iniciativas verdadeiras, seguras, sólidas, perenes. Deixar-se interpelar pela solidão que nos habita é bom. É desse ordenamento das coisas que verbalizamos, recriamos e movimentamos a integridade dos  afetos  que  nos  revelam. 

Antônio Laért
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