JORNAL MILENIO VIP

Colunistas - Neuza Carion

Do bem e do mal

Publicado na edição 154 de Outubro de 2015

Tempos atrás escrevi a uma amiga e decidi reproduzir o texto aqui, em razão das tristes histórias que temos visto divulgadas. É um alerta para a necessidade de se estar atento, informado. Mas também é uma declaração de esperança e um voto de confiança pelo claro despertar da consciência de nosso povo, pela disposição para  tornar-se sujeito ativo ao invés de objeto passivo da própria história.

Gláucia,


Conversamos outro dia a respeito da impressão que temos sobre as pessoas e não pudemos terminar o papo porque precisei ir embora, mas o assunto ficou dando voltas em minha cabeça, não pude dormir e resolvi digitalizar minhas elucubrações.


Falávamos do incômodo (digamos assim) que nos traz o demonstrar desconfiança, ou mesmo formar um mau juízo sobre alguém, ainda que não o manifestemos. Você dizia da necessidade, para sua tranqüilidade, de acreditar que ninguém é capaz de fazer o mal. Como se admitindo a possibilidade do mal, se tornasse automaticamente objeto (vítima) do mal.


Concordei em parte, porque nossa formação cristã pede que “amemos o próximo como a nós mesmos” e incluímos nisso a crença na boa fé e na boa vontade humanas como regra e padrão.


Discordei porque admitir a existência do mal não me torna conivente com ele, nem me sujeita a ele. Quero crer que tenho poder sobre meu coração e minhas opções de ser e agir. E força para me defender.


Na verdade a consciência, o conhecimento, são a força que me protege. A recusa a ver, a ignorância, a inocência retardada, fragilizam. Conhecer e procurar compreender o perigo permite evitá-lo, ou atacá-lo, ou afastá-lo e criar um ambiente seguro, porque conhecido e sob controle. “É preciso estar atento e forte...”.


Mas atenção não é sinônimo de tensão. Esta, em intensidade ou tempo indevidos, perturba e desvia a atenção de onde ela é necessária. Um santo (Paulo? Tiago?) dizia: vigiai e orai. Orar (seja como for) – e confiar – complementa a vigília e permite a saudável alternância com o relaxamento. Por isto a humanidade criou a civilização e a cultura, seus recursos e mecanismos: para se proteger (da fome, da doença, da morte prematura) e se permitir o repouso, o lazer.


A necessidade de estar atento e se cercar de proteção precisa ser encarada não como um fardo ocasional, mas como condição de vida. E é. Precisa ser exercitada por mente e corpo, pois como qualquer exercício, fortalece. A princípio exige e cansa. Depois, torna-se necessidade e prazer. Fugir disto é se entregar, porque o perigo e o mal podem vir a qualquer hora e de qualquer direção (ninguém planejou Catrina, ou as tsunamis...). Cabe a nós observar, ver, se possível prever, agir, reagir. Faz parte. Pode até ser emocionante.


De volta ao ponto de origem, a respeito de se ver as pessoas como capazes de fazer o mal: fazem mesmo, faz parte da natureza humana, de nós inclusive. E saber disto é bom, faz parte do treinamento, do calejamento.


Mas nem todo mundo é mau, nem o tempo todo. E muitas vezes, mesmo quando a proposta é ajudar, o que fazemos resulta no mal (dizem que o inferno anda cheio de bem-intencionados...). Também é possível causar algum mal sem absolutamente nenhuma intenção, ou ação, ou omissão, mas por puro acaso. Acontece. Para lidar com tudo isto existem a Paciência, a Tolerância e o Perdão, filhos da Humildade.


Por fim, é preciso ainda lembrar a relatividade de tudo, inclusive do bem e do mal. Há algum tempo me aconteceu uma historinha muito interessante: em uma casa onde morei havia alguns exemplares de um tipo de árvore que a cada outono eram infestadas por lagartas, em tal número, que seus ramos ficavam completamente cobertos e podíamos ouvir o barulho das folhas sendo devoradas, dia e noite. Era uma visão antipática - e repugnante. As crianças sacudiam os ramos para jogar ao chão as lagartas, às vezes as matavam (eca!), mas de nada adiantava, pois outras sempre vinham e continuavam seu trabalho de destruição até a árvore ficar totalmente pelada. Era uma visão triste, aqueles galhos nus apontando para cima como braços pedindo socorro.


Um dia, num livro sobre ecologia, descobri a verdade: aquelas árvores são de uma espécie originária do Hemisfério Norte onde, a cada outono, perdem todas as suas folhas. Na realidade precisam da hibernação para descansar. Na primavera seguinte rebrotam cheias de vigor. Em um clima tropical como o nosso, com sol e calor doze meses ao ano, as folhas não caem. As espécies nativas são adaptadas para isto, mas aquelas, em pouco tempo morreriam de exaustão. Porém a Mãe Natureza é sábia e sempre faz com que as coisas sejam e aconteçam como devem ser: encontrou um meio de preservá-las, numa relação simbiótica com as lagartas, também estas se beneficiando pelo alimento farto, que de qualquer forma precisaria cair dos galhos, estendidos em louvor.

E as lagartas, que víamos como demônios predadores e destruíamos, eram anjos salvadores. Aquelas lagartas que viram borboletas, lindas, coloridas. Aquelas borboletas que de flor em flor fazem a polinização das árvores frutíferas e trazem uma visão de beleza aos nossos olhos inconscientes de sermos nós os verdadeiros predadores.

Mas enquanto há fé, viva, há esperança ...


Um beijo,

Neuza Carion

Neuza Carion
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