JORNAL MILENIO VIP

Colunistas - Cesar Pinheiro

MUDANÇA DE POSTURA

Publicado na edição 90 de Março de 2009

O texto escrito anteriormente (Sentir-se mageense) cumpriu bem o seu papel. Provocou alguns leitores – que se comunicaram comigo através de e-mail. As posições daqueles que reagiram ao texto foram totalmente diferentes: alguns se identificaram inteiramente com as idéias; outros, com nada concordaram. E é exatamente com estes que irei dialogar agora. Com base na opinião dos que discordaram por completo das idéias sugeridas no texto anterior, comporei as linhas do presente texto. 1) Algumas pessoas me disseram que falar em uma identidade local consiste em algo que beira o absurdo. Acusaram-me de bairrismo. 2) A comparação entre Rio e Magé também foi alvo de duras críticas. O argumento básico foi o seguinte: tal comparação seria, no mínimo, inválida, visto que o Rio de Janeiro sempre ocupou lugar de destaque na história do país – foi capital federal e é uma cidade mundialmente conhecida. Para tais críticos, falar de identidade carioca seria algo completamente natural, enquanto falar de uma identidade mageense, local, seria algo que tangencia o ridículo. 3) Porém, o que mais irritou as pessoas que se posicionaram contra as idéias do texto anterior foi o fato de eu ter afirmado que, em termos de beleza natural, Magé não perde em nada para o Rio de Janeiro. Argumentaram que isto é um grande absurdo; uma ofensa à cidade maravilhosa.

Em primeiro lugar, a defesa de uma identidade local nada tem a ver com bairrismo. Quando proponho pensarmos em nossa identidade – ou em fragmentos disso – não proponho um “fechamento” dos mageenses sobre si e sobre a cidade de Magé. Também não defendo uma suposta superioridade de Magé e dos mageenses em relação a outras localidades e seus moradores (que grande absurdo!). A proposta de pensar sobre identidade local diz respeito tão somente à reflexão acerca do processo de construção do pertencimento a uma dada coletividade. Ou seja, além do território que dividimos, o que mais poderia nos caracterizar como mageenses? Seguindo no rastro das idéias de Roberto DaMatta (um dos maiores antropólogos brasileiros), pergunto: o que faz de magé, Magé? Para além do território que ocupamos, haveria algo que nos caracterizasse como uma coletividade? O que proponho aos leitores é pensar sobre essas questões, apenas isso.

A comparação entre Magé e Rio tem seus limites, reconheço, mas ela não é impossível. O Rio de Janeiro dá cara ao país: seja através de romances clássicos, das novelas de Manoel Carlos ou de propagandas da TV. A identidade carioca, digamos assim, não se espraia somente pelos municípios da região metropolitana do Estado, mas por todo o país. Os críticos têm razão em alertar os limites dessa comparação. Entretanto, o Rio não é a cidade que muitos idealizam por aqui. O Rio de Janeiro tem problemas da mesma natureza dos nossos (embora em escalas distintas): corrupção, compra de votos, nepotismo, etc. Vale lembrar que na câmara de vereadores do Rio há pessoas ligadas ao tráfico e às milícias. Há também problemas de infra-estrutura e de organização urbana. Para não falar de problemas mais graves: como conflitos entre quadrilhas de traficantes e polícia. Quando os críticos argumentam, penso que eles apenas se lembram do Rio das novelas, dos bairros de classe média da Zona Sul e dos condomínios de luxo da Barra, e se esquecem do Rio das favelas e da Zona Oeste – só para dar um exemplo. Entretanto, a idéia da comparação não consiste em avaliar pontos positivos e negativos das duas cidades. A idéia é outra e é bem simples: os problemas do Rio de Janeiro, apesar de tudo, não impedem uma identificação positiva dos cariocas com a sua cidade. Já os problemas de Magé parecem consumir inteiramente qualquer possibilidade de identificação positiva dos mageenses com a sua cidade. Aqui em Magé, os problemas justificam uma postura de total desvalorização da cidade, uma postura autodestrutiva, um incessante falar-mal-da-cidade. Aqui, banalizamos e naturalizamos a desvalorização da nossa cidade.

Qualifico, então, um pouco mais, a questão-chave: além do território que ocupamos, o que nos caracterizaria (positivamente) como uma coletividade, como mageenses? Será que poderíamos encontrar traços (positivos) culturais e/ou sociais comuns às diferentes pessoas e coletividades menores que compõe o nosso município? Há algo (positivo) que atravessa as nossas diferenças e nos caracteriza como coletividade, como mageenses? Penso que levar essas questões a sério é importante: pensar sobre Magé é pôr Magé para pensar. E isto anda nos faltando à mesa coletiva: o pensamento e a reflexão sobre a cidade. Em geral, o discurso negativo e autodestrutivo que os mageenses têm sobre si mesmos e sobre a cidade de Magé é automático: falamos mal de nossa cidade e do Povo de Magé com a mesma facilidade (e naturalidade) com que respiramos – sem pensar. Está na hora de refletirmos seriamente sobre essa postura coletiva de autodestruição. Precisamos colocar Magé (e não somente sua política e seus políticos) no centro das nossas atenções e das nossas reflexões para, quem sabe, reverter esse quadro e começar, a partir de um discurso que valorize a cidade, a construção de uma Magé melhor. Nesse sentido, gostaria de agradecer aos críticos que reagiram ao meu texto anterior. Por mais que nossas posições tenham se mostrado completamente divergentes, constatei que o meu objetivo maior com essa coluna – contribuir para que os mageenses pensem mais sobre Magé e sobre seu pertencimento ao lugar – pode ser de fato alcançado. Como já disse no texto anterior, meu objetivo não é impor meu pensamento, mas sugerir questões e provocar debates que, creio, são importantes para a cidade – neste caso, debates sobre questões relativas à identidade local e ao pertencimento.

Por fim, gostaria apenas de me referir à idéia que parece mais ter irritado a sensibilidade dos críticos: Magé, em termos de beleza natural, em nada perde para o Rio. Gostaria de, nesse texto, confirmar essa idéia. Eu não estou a dizer, com isso, que Magé é uma cidade mais bonita que o Rio. O Rio é lindo e isso é indubitável. Como disse anteriormente, não é por aí que conduzo a comparação. Meu objetivo, quando eu digo que, em termos de beleza natural, Magé em nada perde para o Rio, é chamar a atenção positivamente para a nossa cidade: apesar dos problemas que existem aqui, Magé possui lugares lindos que devem ser valorizados e reconhecidos. Isso, em geral, não acontece. Há uma supervalorização do Rio de Janeiro (lugar também repleto de problemas) e uma desvalorização compulsiva de Magé, do seu povo e dos seus lugares. Isso se comprova quando os críticos do texto anterior dizem que falar em uma identidade local positiva é algo ridículo. O automatismo do nosso discurso autodestrutivo (que, creio, deriva, sobretudo, de nossas experiências políticas frustrantes e frustradas) parece não poupar nada: nem o povo, nem as belas paisagens e os belos lugares que por aqui temos. Aliás, se há algo que nos caracteriza como coletividade e, nesse sentido, faz parte de nossa identidade local, é o nosso discurso autodestrutivo. Se quisermos realmente iniciar alguma transformação por aqui, insisto, é preciso que mudemos esta postura autodestrutiva o quanto antes. Acredito que, embora esta mudança de postura não seja o remédio para todos os nossos males, ela seria um importante e indispensável passo em direção a uma Magé melhor.

Obviamente, não devemos ser ingênuos: pensar sobre Magé de maneira menos autodestrutiva não significa abrir mão do senso crítico. Devemos sempre estar atentos em relação aos problemas do nosso município: eles existem aos montes! Entretanto, Magé não se caracteriza somente pelo que possui de ruim (isso deveria ser uma obviedade!). Há muita coisa boa aqui que deve ser reconhecida e valorizada (pela sociedade e pelo poder público), que deve ser incorporada à nossa identidade local. Precisamos equilibrar a balança. Devemos ter um discurso que valorize a cidade, seus lugares e seu povo, ao mesmo tempo em que não devemos perder o senso crítico – devemos sempre denunciar as coisas ruins que aqui existem e lutar contra os problemas que nos atingem cotidianamente. A motivação da luta, em grande parte, vem de uma identificação positiva com a cidade. Valorização e transformação, no caso de Magé ao menos, são coisas intimamente relacionadas.


Cesar Pinheiro
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