JORNAL MILÊNIO VIP - Coisas da vida

Colunistas - Antônio Laért

Coisas da vida

Publicado na edição 157 de Fevereiro de 2016

"O que é o tempo? Se ninguém me pergunta  eu sei.Se me perguntam e eu quero  explicar,  não  sei  mais".
Santo  Agostinho(354-430)

"acordei bemol, tudo estava  sustenido,  sol  fazia, só não fazia  sentido".

Paulo  Leminski(1944-1989)


Recebi a visita de amigos queridos e vivemos um dia  maravilhoso. Ouvimos, tocamos  e  cantamos canções de nosso tempo. Constatei nesse reencontro que o tempo não passa sem deixar marcas. É generoso com uns, não tão dócil com outros.  Nada explica nada, mas é assim mesmo. Como gostaria de  mudar  o curso  da  história, se  fosse super homem. Usaria de meus super poderes para impedir algumas coisas, reverter o tempo, voltando-o àquela quadra da história em que  vivemos nossa  juventude. Agora, no  entanto, está  tão  longe  a  linha  do horizonte. O sol realmente se põe, as flores murcham, pedras viram pó, mas o mistério da eternidade e finitude nos embaraça. Esse amigo é tão especial que  tudo pode mudar. Haverá de alcançar  aquilo lhe  falta. A vida  é um  espaço  de  tempo entre  o  nascimento  e a  morte.  Se  essa  verdade é  incontornável, o que  deve  caber  a  nós ? Cuidar de viver, tratar bem desse hiato -  espaço  de  tempo  que  nos  é  concedido  para  gozar  com  saúde essa estada por aqui. Escrevo essas linhas para  esquecer, depois de ter  deixado em  vão a  onda me acertar. Foi o que vi ? Era isso mesmo ? Que o vento leve então tudo  embora, porque nada irá  apagar  o  desenho  que  tenho aqui: uma  destreza  nos  instrumentos  musicais que  toca; uma voz que canta em qualquer  voz; uma  criatividade  musical  intensa. A mente e o  corpo, tão  breves,  são  ilusões, mas ainda falta muito tempo para  findar qualquer desenho. A marca  resplandece  e  o  brilho  não  é  pequeno. Se entregar então, seria uma bobagem. Resistir é necessário. Enfrentar e correr atrás  da  voz  que chama  para  avançar, ir  em  frente e  não  se  deixar dobrar  deve  ser  a  seta e o  alvo. Cuide-se bem para não perder aquele riso largo e sonoro. Nada de ficar no sofá. A música te chama e como sempre o levará longe. Deixe-se envolver. Mantenha-se em movimento. Não deixe a chama baixar, nem esfriar. A essa  altura, jamais seremos os mesmos  para  sempre. Mas  continuar com a gente, suave na nave, com a  força da espera e aquela  beleza, sabedoria, afinação, elegância e finesse, é  tudo que  desejamos. Falhar não é fatal. A coragem de continuar é  que  conta.

Antônio Laért
Conheça o perfil pessoal de nosso colunista ou outros artigos publicados por ele
Clique Aqui