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Colunistas - Neuza Carion

We, the people - nós, o povo

Publicado na edição 158 de Junho de 2016

Já há algum tempo os assuntos que dominam o noticiário, no Brasil, são invariavelmente ligados, ou vinculados, a questões políticas.  

- Claro! Tudo, sempre, é - direis. Vivemos num sistema em que indivíduos escolhidos pela maioria detêm o poder de decisão e ação sobre as condições de vida de toda a sociedade. 

Do Oiapoque ao Chuí, em grandes centros urbanos e vilarejos, tudo que vemos, ouvimos e lemos gera questionamentos sobre a ineficiência ou a omissão do poder público e sobre corrupção e desvios - de recursos e de conduta. Em todos os níveis: União, Estados e Municípios, são acidentes e incidentes envolvendo Saúde, Educação, Segurança, o direito de ir e vir - tudo que é direito da população e dever do Estado, segundo a nossa Constituição. São operações da Polícia Federal e do Ministério Público sobre o mau uso do dinheiro do cidadão contribuinte. São projetos e obras inconclusos e sem manutenção. É abuso de autoridade. É falta de fiscalização sobre as concessionárias de serviços públicos. São tragédias, chacinas, serviços públicos em greve ou empresas terceirizadas sem repasse de verba.  Ficou faltando algo na lista? Provavelmente muito.

Correm pela internet textos, imagens e vídeos chamando à consciência e à ação. O problema é que as mensagens, em geral, têm um objetivo político-partidário que, na verdade, não propõe uma mudança, mas uma "troca". E a "tomada de consciência" acaba por não produzir atitudes e ações corretas e eficazes.  Mesmo para aqueles que têm esclarecimento suficiente para perceber a necessidade de se fazer algo, parece não estar claro o que precisa ser feito, nem por quem. E algumas situações são, indiscutivelmente, de competência do poder público. Mas nem todas... Acredito que, como povo, temos uma característica que costumo chamar de "síndrome do apadrinhado". Basicamente é uma questão cultural: uma mistura de conceitos, crenças e valores herdados e assimilados, embutidos em nosso inconsciente coletivo ao longo dos séculos. Em minha visão de leiga, entre os fatores que contribuíram para isto houve, por exemplo, a prepotência do colonizador europeu que, amparado por uma cultura tecnologicamente mais avançada e armas mais potentes, dominou, escravizou e, por muitos meios, aculturou o nativo indígena, exterminando os que não se submeteram. Assim como torturou, humilhou, aniquilou a dignidade do africano seqüestrado, escravizado e destituído de sua humanidade. Sem esquecermos a subordinação dos europeus que aqui chegaram sem recursos, por degredo ou já a serviço das famílias abastadas, ou em posições subalternas.

Como conseqüência, houve a convicção imposta da superioridade do colonizador branco, rico e poderoso - senhores e patrões - e o sentimento de impotência dos subjugados sem meios de defesa, sem alternativas de sobrevivência. De geração em geração foi transmitido o sentimento da superioridade de uns e da incapacidade de outros, mantidos na ignorância. Os que exerciam o poder - "senhores", "coronéis", "doutores" - mesmo antes da existência de um Estado constituído, por analogia eram vistos como detentores do direito divino e do poder absoluto dos soberanos.

Assim viemos neste mais de meio milênio de História. Assim ainda estamos. Os donos do poder político e/ou econômico, tudo podem. Fazem o que querem e o que acham que devem. A massa despossuída e desinformada se enxerga incapaz e dependente. E isto é conveniente para quem quer manter o poder. São questões e problemas ainda longe de uma solução, mas se conseguirmos que sejam percebidos e identificados poderemos, ao menos, ter esperança.Um vídeo recebido há algum tempo me levou a estas considerações. Quem enviou, acrescentou o comentário: "seria fundamental para o Brasil uma transformação". Concordo. Independente do partido político que esteja no poder, se o povo se perceber como responsável, como elemento ativo, não como massa passiva, muitos problemas estarão automaticamente solucionados. 

O vídeo a que me refiro é a gravação de trechos do discurso feito por Ronald Reagan em janeiro de 1989, em sua despedida da presidência, tendo como mote o texto de introdução à Constituição dos Estados Unidos. Eu nunca ouvira falar desse discurso, não conhecia a biografia de Reagan, não simpatizava com sua figura nem com sua postura política e me surpreendi. Na verdade, ainda não me identifico com sua linha de pensamento e ação, mas vejo-me obrigada a concordar e a aplaudir suas palavras - numa tradução livre, a seguir:

"A nossa foi a primeira revolução na história da humanidade que verdadeiramente inverteu o curso do governo, e com três pequenas palavras: Nós, o Povo. Nós, o Povo dizemos ao governo o que fazer, não é ele que nos diz. Nós , o Povo somos o motorista, o governo é o veículo. E nós decidimos onde ele deve ir, e por qual rota, e em que velocidade. As Constituições de quase todo o mundo são documentos em que os governos dizem ao povo quais seus direitos. Nossa Constituição é um documento no qual Nós, o Povo dizemos ao governo o que lhe é permitido fazer. Nós, o Povo, somos livres.

E espero termos, mais uma vez, lembrado às pessoas que o homem não é livre, a não ser que o governo seja limitado. Há aqui um claro nexo de causa e efeito, tão claro e previsível quanto uma lei da Física: se o governo expande, a liberdade contrai."

Neuza Carion
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