JORNAL MILÊNIO VIP - Jamais fomos modernos

Colunistas - Antônio Laért

Jamais fomos modernos

Publicado na edição 161 de Maio de 2017

“Nem tudo que é torto é errado; veja as pernas do garrincha e as árvores do  cerrado”.
                                    Nicolas  Behr 
"A ideologia é uma plataforma precária”.

Dias desses, sentado à mesa em conversa com minha esposa,  fui por ela interpelado com ar  de preocupação: você  está  ficando conservador. Levantamo-nos dali, tendo permanecido no  ar a questão. Sob ataque especulativo, com temor e tremor,  fiquei  pensando  na  indagação e estou chegando a conclusão que o  que queria mesmo era ser moderno e acabei descobrindo-me  sem  sê-lo. Será  que meu peito de operário, não esconde o seu ar conservador ou estou ficando  obsoleto  de mim ? Aturdido  de ditos, em meio as contradições que marcam minha personalidade, após despertar do  pesadelo  de  nossa  história  recente, parece  que  voltei a  ser o que já fui. Mas o que já  fui  e hoje sou ? A agenda dita progressista em verdade incomoda, porque atropela valores que acalentamos no curso da história. Querem realizar todas as mudanças no agora, ao argumento que tudo precisa ser purificado e assimilado, sem espaço para discussão prévia. Qualquer dissenso mínimo resume-se a preconceito. Tudo, permeado por uma postura ditada por certo viés de superioridade. Ora, o que é a novidade?   Ela  existe ? O que existe em verdade, é um novo olhar; uma nova forma de ver o que passou despercebido. A novidade tem um brilho ilusório, porque quanto mais as coisas mudam, como diz um provérbio francês, mais são as mesmas. Fernando Pessoa disse isso a  seu  modo: “O meu olhar é nítido como um girassol. E o que vejo a cada  momento é aquilo que antes  nunca tinha visto. Eu sei dar muito bem por isso. Sei ter o pasmo essencial que  uma criança tem”. Opiniões não são todas iguais. Algumas têm mais sofisticação, argumentação e lógica que outras. Eu escrevo para explicar minha vida a mim mesmo: preciso dessas palavras fixadas sobre o branco do papel para ajuntar partes minhas deixadas pelo caminho. É assim que me aprumo e arrumo meu pensamento. Estou convencido que os valores sobre os quais se assenta a formação da pessoa são inegociáveis: uma voz interior me diz  isso e minha experiência de vida confirma. Valores não se relativizam; convicções flexíveis  não existem, não havendo assim como ser tão resiliente, como apregoa o mundo corporativo. Não! Aceitam-se ideias com as quais não se concorda, por respeito e tolerância. Mas, não esperem de  mim nada  além de permanecer  intacto, para  não  me  perder,  porque afinal  de  contas,  como  se  diz,  o  moderno mesmo,  é  ser  clássico.

Antônio Laért
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