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Colunistas - Neuza Carion

MAGÉ: SER OU NÃO SER?

Publicado na edição 91 de Maio de 2009

Muito se tem falado e escrito sobre Magé, quase sempre recriminações e reclamações. Por isto os artigos escritos para este jornal por César Pinheiro Teixeira sobre a busca de uma identidade mageense me afetaram de modo especial, já que há décadas defendo tese semelhante: o que falta a Magé é amor e fé.

Vinda de outras terras, me apaixonei por Magé antes mesmo de me mudar para cá. Talvez pela diferença da cidade grande, talvez pela semelhança com minha cidade natal, na qual jamais cheguei a morar, mas de onde guardo doces e nostálgicas memórias, Magé ainda me encanta, tantos anos depois. Amo o jeito tranqüilo desta cidade quadricentenária, tão segura de si e do que quer. Amo seu apego a algumas tradições e aos laços familiares. Admiro a maneira descomplicada de sua gente levar a vida, concentrando-se no essencial e sendo feliz por ser o que é.

Porque posso olhar “de fora”, posso afirmar que Magé tem uma forma muito sua de resistir e permanecer. Não por acaso tem ainda um índice comparativamente baixo de violência, seu trecho da Baía de Guanabara é ainda o menos poluído, o relacionamento entre as pessoas é mais humano, caloroso, solidário e de modo geral independe de status ou poder aquisitivo.
Magé tem um bom orgulho, discreto e firme, que dificilmente permitiria a degradação moral e social tão fácil de observar em ruidosos e modernosos ambientes. Exceto por certa tendência à acomodação, que gera forte resistência a mudanças - mesmo as necessárias ou inevitáveis - muito pouco eu gostaria de ver mudado na alma desta cidade. É preciso reconhecer que há muito a aprimorar, mas também é preciso saber distinguir entre aparência e essência: certamente não gosto de ver miséria, me entristece a fome, me incomoda a falta de saneamento, me preocupa a ignorância, mas isto tudo tem conserto. É doloroso, mas é superfície. Difícil é lidar com indignidade, malícia, egoísmo, indiferença.

Magé tem, sim, uma identidade construída ao longo de mais de quatrocentos anos. Tem um aspecto físico lindo, ainda que maltratado e uma personalidade extremamente agradável, ainda que modesta se comparada às gigantes ao seu redor. Tem tradições e uma história – ainda que estejam sendo esquecidas.

Magé é seu povo que trabalha e a terra que abriga e sustenta - não a imagem de descaso e descalabro que vira notícia. É a memória de tanta gente boa célebre ou anônima, que aqui nasceu, viveu e contribuiu para construir este país. É o futuro possível, se houver amor e fé. Basta crer. Basta querer.

Por tudo isto, lanço aqui um desafio: que no próximo mês de junho, quando Magé completa seus 444 anos, seus filhos e amantes festejem. Que suas instituições, igrejas, escolas, empresas, entidades – a sociedade civil organizada – promova manifestações, exposições, encontros, trabalhos, debates - à parte do que o poder público faça ou deixe de fazer.

Que Magé se veja, se reconheça, se revele, para que todos possam ver e sentir a preciosidade que se oculta sob uma fachada que, sim, precisa mudar. E a seu tempo, no mo(vi)mento certo, mudará.

Neuza Carion
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