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Trinta anos sem a genialidade de Mané Garrincha

Há 30 anos, a Alegria do Povo era derrotada por uma cirrose. Mané Garrincha deixava viúvos milhões de brasileiros que aprenderam com ele que futebol era mais do que um esporte, era uma grande brincadeira. Enquanto uma missa em Pau Grande relembrará hoje o craque, em clima de saudosismo o Botafogo entra em campo, às 19h30m, no Engenhão, para enfrentar o Duque de Caxias na estreia do Estadual.

 

Mas em vez de flores, monumentos e homenagens, o túmulo de Garrincha está esquecido no cemitério Raiz da Serra, em Magé, entre anônimos e focos de dengue.


 

 

— Ninguém vem aqui. É uma tristeza. Era para ele ser o orgulho de Magé, mas é o túmulo mais simples e um dos mais abandonados. Não vem ninguém da família. O único que se importa é o gringo (Ulf Lindberg, o filho sueco), que todo ano vem aqui e manda limpar o túmulo. Sempre balançando a cabeça e chorando — conta seu Buba, dono de uma oficina em frente ao cemitério.

Garrincha está enterrado na mesma lápide de um sobrinho morto em 1955. Os herdeiros dizem não ter condições financeiras de fazer uma homenagem maior. Porém, a população local prepara um tributo. Comerciantes se mobilizaram para transferir os restos mortais do túmulo da família para o simples mausoléu feito pela prefeitura, que será reformado para contar, com limpeza e decência, a história de um dos maiores jogadores da história do futebol.

 

O fusca de Mané

Histórias sobre Mané se multiplicam no distrito de Pau Grande. "Taão" Menezes foi motorista de Garrincha e conta que ele comprou um carro só para poder ir e voltar para sua cidade.


— Ele comprou um Fusca azul porque estava enjoado de ir e voltar de trem. Eu não tinha carteira, mas ia direto levar ele. Ele vendeu o fusca para o Quarentinha, que nunca o pagou — conta "Taão", que algumas vezes levou Garrincha a casas de prostituição, mas só por diversão: — Não precisava. Era muita mulher em cima. Elas encostavam nele e perguntava se era o Garrincha.

 


Seu Britto, de 82 anos, outro morador local, fica de olhos cheios d’água ao lembrar de Garrincha.

— Joguei contra ele uma vez. Era endiabrado. Até o adversário ria. Em campo, até o juiz era driblado. O campo era dele. As pernas que você achavam que iriam para um lado ficavam paradas. — conta seu Britto, que não se conforma da maneira que o craque terminou: — As pessoas tem que manter sua imagem viva, e ele não manteve — ensina.



Memórias de Mané são guardadas pela filha


Lá se vão 30 anos desde que Mané deixou este mundo. O que restaram foram lembranças, imagens e alguns pertences. No bairro de Oswaldo Cruz, Zona Norte do Rio, não muito longe do Engenhão, vive Maria Cecília, uma das filhas de Garrincha. Lá, ela mantém um acervo com um pouco do que restou da memória do bicampeão mundial com a seleção, em 1958, na Suécia, e 1962, no Chile.


A casa tem um aposento apenas para as coisas do ídolo, uma espécie de pequeno "museu" particular. E a filha diz que fez questão de comprar uma casa que tivesse um quarto exclusivo para Mané.

— Escolhi cuidadosamente uma casa com espaço suficiente para o quarto do papai. E vai continuar assim enquanto eu estiver viva. Quando eu morrer, os meninos poderão mudar, mas espero que não — afirma a agente de saúde de 52 anos, referindo-se aos dois filhos, Herica e Heric.

O acervo reúne alguns itens usados por Garrincha e outros presentes doados à família. Além de troféus e camisas, quadros e recortes de jornais antigos, uma estante guarda uma chuteira usada por Garrincha na Copa de 58 (apenas uma delas restou do par original, já que a outra está sumida) e um casaco da seleção doado pela sobrinho de Elza Soares, ex-mulher do ídolo.

Uma bola quase murcha da Copa de 98, doada por Ronaldo e Zidane à família durante evento da Fifa, também está lá. Sinal do prestígio que Mané deixou como legado.

 


Nem só as lembranças materiais, entretanto, guardam a memória de Garrincha na casa, e algumas histórias ainda marcam Maria Cecília.


— De todas as lembranças, recordo de quando tinha 9 anos, morava em Pau Grande, e ele chegava com seu fusca para dar presentes às crianças. Era uma alegria só — recorda-se a herdeira do Mané.

Referências ao Botafogo também não foram esquecidas, como os azulejos que formam o escudo do clube na piscina da casa. Maria Cecília diz que ela, o marido e os dois filhos torcem para a time, responsável pelo tom alvinegro do quarto que guarda um pouco da história do craque.