JORNAL MILENIO VIP

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Entrevista com Comunidade Servos da Divina Misericórdia

Publicado na edição 139 de Abril de 2014

Pouco depois de haver sido divulgada a informação de que Dom Orani Tempesta, Arcebispo do Rio de Janeiro, está entre os novos cardeais nomeados pelo Papa Francisco, soubemos que ele viria participar de uma solenidade e rezar uma missa aqui em nossa região. O fato tem um significado especial para os católicos mageenses, pois a notícia da indicação veio ao mesmo tempo que outra: a do início do processo de beatificação do mageense Jerônimo de Castro Abreu Magalhães e de sua esposa Zélia, de cuja candidatura Dom Orani foi padrinho. Buscando informação sobre a visita do Arcebispo, chegamos à Comunidade Servos da Divina Misericórdia, no Vale das Pedrinhas, no município vizinho de Guapimirim, que o recebeu. Ali se desenvolve, entre outros, um impressionante trabalho na recuperação de dependentes químicos. Foi ali que o Irmão Ricardo – morador da comunidade, casado, com um filho, ex-adicto livre do vício há mais de 15 anos, feliz, sorridente, dizendo sentir-se realizado - nos concedeu esta entrevista.

Milênio Vip - Fiquei sabendo da visita de Dom Orani Tempesta para celebrar uma missa aqui e assim soube que aqui é uma casa de recuperação.
Irmão Ricardo - É uma casa que trabalha com a restauração de pessoas que se encontram no vício do álcool e das drogas. 

Há quanto tempo vêm desenvolvendo este trabalho?
Estamos aqui há sete anos, mas a comunidade já existe há treze anos. Nós nascemos na Diocese do Rio de Janeiro, no bairro de Olaria, na paróquia de Nossa Senhora de Fátima.

Como vieram para cá?
Nossa vinda pra cá é uma estória de muita dor. Nós tínhamos uma casa em Olaria, mudamos para uma maior em Ramos e, com o tempo, o aluguel ficou muito caro. Chegamos a ficar devendo, fomos despejados e então fomos parar em Trajano de Moraes, no bairro de Tirol. De lá também fomos despejados, e nos emprestaram uma fazenda da qual cuidamos, construímos capela, reformamos a casa, plantamos milho, feijão, tomate e, quando estava perto da colheita, o dono (que havia emprestado) falou que tínhamos uma semana para sair de lá. Então o juiz Luiz Carlos Velozo, Diácono da Igreja Católica no Rio de Janeiro, que tinha este sítio em que estamos hoje, ao saber da situação difícil, nos fez uma proposta. Aí eu brinquei com ele, que parecia não estar entendendo, pois estávamos sendo despejados! Mas ele já tinha emprestado o sítio para nós, para a realização de um retiro e, já que o estava vendendo, nos propôs ficar por três meses, nesse tempo levantar um valor como entrada e pagar o restante em quarenta prestações, sem juros. E viemos, com a cara e com a coragem. Por aonde íamos pedíamos doações e ganhamos muitos porquinhos daqueles de barro que as pessoas tinham em casa. Lembro que quando fomos trocar, no banco, levamos quase tudo em moedas! Imagina a cara do pessoal do banco, para contar todas as moedas... Mas era o que tínhamos. Depois uma senhora nos doou a quantia que faltava e demos a entrada. As mensalidades foram a manifestação de Deus, de alguma forma. Foram alguns italianos que acolhemos aqui, outras pessoas que nos ajudaram, alguns ministérios de música da Igreja Católica nos cederam suas músicas para gravarmos e fazer um CD e, com a gravação do CD conseguimos quitar. Para você ter uma idéia, parecia impossível conseguir pagar a mensalidade e fazer a manutenção do sítio, que é cara, no prazo de 40 meses. No entanto, quando faltavam dois anos pra terminar o prazo nós já tínhamos quitado a dívida, pago todas as prestações. Foi a manifestação de Deus a cada mês, através de pessoas amigas que nos ajudavam, que fez com que conseguíssemos.

De que a comunidade sobrevive hoje?
Nós vivemos de doações, da ajuda de familiares dos que estão acolhidos, e temos nossos produtos: CD’s de pregação de sacerdotes amigos nossos que permitiram que gravássemos suas pregações para comercializar - inclusive o Padre Alan, de Magé, e o Padre Walney.

Então se as pessoas quiserem doar, basta procura o Padre Alan? Eu não o conheço pessoalmente, mas sei que ele é uma pessoa bastante querida na cidade.
Pode procurar o Padre Alan que ele vai fazer chegar até nós, com certeza.

E essas pessoas que vocês acolhem aqui, têm condição financeira?
Não, não têm. Algumas famílias contribuem com um valor mensal, outras não contribuem com nada porque não têm - e a gente vai...

Essas pessoas são daqui da localidade ou são do Rio de Janeiro?
São do Rio, de Magé, de Juiz de Fora... Já tivemos da Bahia, do Espírito Santo.

Eles não fogem?
Não, porque aqui a gente tem uma regra e o portão fica aberto. A regra é: quem quer fica, se não quiser, o portão está aberto, é só falar: - Não quero mais ficar. E não vamos obrigar ninguém a ficar.

Quantos acolhidos há, nesta casa, atualmente?
Nós chamamos de nossos meninos... Nós temos nove e o número máximo é doze, então estamos perto de fechar as vagas.

Quanto tempo eles permanecem aqui?
Ficam conosco por nove meses. E nesse período o tratamento é uma vida de oração. Rezam os Ofícios conosco, rezam o Terço de Nossa Senhora, o Terço da Misericórdia, participam de missa, grupo de oração. É uma vida de oração bem intensa. Também tem a geoterapia, que é o trabalho com a terra, com a horta, é capinar, todas essas coisas que funcionam como uma terapia ocupacional. E tem um tratamento psicológico, quando necessário. A gente tem alguns psiquiatras que nos ajudam. Eles são do Rio e nos ajudam de forma gratuita, sempre que precisamos, dando suporte para esses meninos que necessitam, principalmente aqueles que estão saindo do crack. Muitas vezes é necessário o uso de remédios, mas aí nós vamos entrando num tema um pouco polêmico, porque a medicina vai dizer que sem o remédio não há cura, mas nós sabemos que por meio da oração também há muitos que se libertam. A gente tem, hoje, muitos que estão trabalhando, que estão firmes na caminhada, porque abraçaram a religião.

Vocês já têm esse resultado, de pessoas que ficaram aqui por nove meses e se libertaram de fato
Muitos. Inclusive nós temos aqui dois que estão morando conosco como voluntários, para ajudar os demais e outros que já são consagrados e que passaram pela comunidade. Então temos muitos que estão de pé agora, e o que os mantém de pé quando saem é a perseverança, é não abandonar aquilo que aprenderam aqui dentro e continuar firmes na Igreja, ir ao grupo de oração, à missa, buscando continuar no grupo de auto-ajuda. Para isto a Igreja tem a Pastoral da Sobriedade e há o NA (Narcóticos Anônimos), o AA (Alcoólicos Anônimos), o Amor Exigente, e tantos grupos que vão dar suporte quando saírem daqui.

E a reincidência? Acontece?
Acontece sim, mas costumo dizer que, os que recaem, é justamente por não perseverar. Aí vários fatores podem influenciar. Vou dar um que muitas vezes é o que faz com que muitos recaiam nas drogas, que é a própria família. Porque a família entende que colocou o filho aqui pra se recuperar da cocaína, do crack e, quando chega em casa, a família não admite que o álcool também é uma droga e que é a porta de entrada para essas outras drogas mais pesadas. 
E o indivíduo, às vezes, vai recair dentro de casa, porque vai começar a beber com os seus familiares e isso vai ser um passo para ele recair.

Os casos que mais aparecem são de drogas mais pesadas?
Os casos mais frequentes são de uso de cocaína. O crack e o álcool são as drogas mais difíceis de se trabalhar e ver a restauração, hoje, mas nós conseguimos, apesar da dificuldade.

Interessante que recentemente, aqui no Brasil, um juiz deu uma sentença absolvendo uma pessoa que entrou no presídio levando 46g de maconha pra um detento, afirmando que a maconha era apenas um elemento de recreação. Isso causou polêmica e o Ministério Público entrou com um recurso e essa liminar de soltura do rapaz já foi cassada, porque alegam que o Brasil ainda não trabalha com essa linha de pensamento, embora os Estados Unidos e alguns outros países já tenham liberado a maconha. O que você acha do uso da maconha?
Por mais que muitos queiram a liberação da maconha - que é um tema polêmico - e que nós tenhamos um vizinho, o Uruguai, que já liberou, é muito complicado. Primeiro levando pelo lado da saúde, porque nós temos uma saúde falida - a saúde pública do nosso país é falida, não consegue cuidar dos casos que estão aí em alta, como dengue e tantas outras coisas - aí vem aquele monte de usuários com crise de overdose. Será que vai haver condições de acolher e dar suporte para essas pessoas? Não vai. E por mais que digam que a maconha é uma erva medicinal, nós sabemos que há a química também, como no tabaco. E assim como o cigarro causa câncer, a maconha também causa. Então, tentam criar uma fantasia em cima disso para liberar - e eu acredito que vão ficar pressionando para que no Brasil também haja essa liberação, mas eu temo pela saúde pública, porque infelizmente a gente sabe que ela está falida mesmo. Você vai ao hospital, fica três horas e sai de lá com um paliativo, não sai com uma solução. Então imagina com mais esses casos para a saúde.

Mas é que a maconha é menos usada aqui.
Eu não acho que seja menos. E o usuário vai fumar, vai perder um pouco dos seus sentidos, vai ficar meio aéreo, e você imagina o que uma pessoa pode causar no trânsito se tiver usado maconha e dirigir, por exemplo. Pode causar um acidente horrível. Então não está colocando só a própria saúde em risco, mas a vida de tantas pessoas, num ato irresponsável. A gente vê isso acontecendo com o álcool hoje.

Para manter os acolhidos, com médico além da alimentação, vocês contam com ajuda, doações? Tem médico que vem aqui?
Não, nós temos que levar ao Rio quando precisamos. Ou, quando é caso de emergência, de uma crise de abstinência, temos que correr para o Hospital de Magé, para tomarem soro, glicose, um calmante para dar uma tranqüilizada. É o nosso SOS até levarmos ao psiquiatra, lá no Rio, para que passe os medicamentos necessários.

E fala da Ordem, que aqui tem uma Ordem, como é o nome?
Aqui é uma comunidade. A Igreja hoje está vivendo o período das novas comunidades, que é o que nós somos, e tem várias comunidades no mundo inteiro. A nossa comunidade é a Servos da Divina Misericórdia e temos um carisma que é semear essa misericórdia nos corações sofredores. Não trabalhamos somente com dependente químico, aqui neste espaço nós trabalhamos também com moradores de rua. Não acolhemos, mas damos assistência naquilo que é possível. Trabalhamos com 12 famílias, aqui próximo de nós. Ajudamos com cesta básica, cuidamos de algumas crianças.

Sem ajuda de governo nenhum.
De ninguém, nem de Magé, nem de Guapi, aqui não tem política nenhuma que nos ajude.

Você aceitaria ajuda política?
Olha, nós necessitamos de ajuda, e dizer que não aceitaria... Desde que seja uma ajuda que não venha interferir no nosso trabalho, porque querer ensinar como deveríamos acolher... Enfim, esse foi um dos fatores para não querermos ajuda governamental, mas a ajuda empresarial, de pessoas de boa vontade, toda ajuda é sempre bem vinda, pois temos uma despesa bem grande. Hoje a gente gasta entre R$ 7.000,00 e R$ 8.000,00 para manter o sítio aberto. Com as famílias, as poucas que contribuem, a gente arrecada cerca de R$ 1.200,00. O resto é na benção de Deus mesmo, é vendendo CD, saindo pra dar palestra.

Mas quem faz isso, quem vende, quem sai?
Nós mesmos vendemos os CDS pela internet.

Quantas pessoas fazem parte desse grupo?
Hoje nós somos em torno de 50 a 60 membros da comunidade, entre Magé e Rio. E hoje temos seis membros no Rio Grande do Norte que estão iniciando o trabalho com a prostituição infantil.

Vocês estão aqui já há sete anos, mas a comunidade é do Rio de Janeiro, então quero saber o porquê de Dom Orani ter vindo para cá rezar a missa.
Ele veio justamente porque nós nascemos na Diocese dele e o nosso padre, o padre Walney, continua na Diocese do Rio, na paróquia de Nossa Senhora da Lapa em Senador Camará. Então temos esse laço com a Diocese do Rio e, apesar de estarmos na Diocese de Petrópolis, também temos casa lá no Rio, estamos nas duas Dioceses, muito bem acolhidos aqui por Dom Gregório e acolhidos lá por Dom Orani. Tanto que ele se fez presente aqui e foi uma alegria pra ele e muito maior para nós ter o recém-nomeado cardeal celebrando conosco. Para nós, ter a presença do Cardeal é ter a presença da Igreja dizendo que estamos unidos a ela. Isso, para nós, é muito importante.

Como posso ajudar essa obra? Ou alguém que, lendo esta matéria, se interesse?
Pode nos ajudar financeiramente, pode nos ajudar com doações de alimentos, de antiguidades. Nós trabalhamos fazendo leilões pela internet, com álbuns de figurinhas, coleções de selos. Às vezes a pessoa herdou da família e está lá acumulando poeira dentro de casa. Nós trabalhamos mais com selos, figurinhas, moedas, gibis. É só trazer que a gente vai avaliar, nem que seja R$ 10,00 a gente consegue arrecadar em qualquer coisa que chegue. Vitrolas antigas, às vezes a pessoa tem em casa e acha que não tem valor. Para nós tem. Às vezes a pessoa tem uma coleção de selos que herdou do avô e fica sem saber o que fazer. Pode trazer.

Tenho uma coleção de moedas e uma baixela antiga de prata que posso doar, não sei se valeriam alguma coisa. Tenho também muitos livros, mas não sei se serviriam.
Livro é mais difícil, mas essas coisas antigas que as pessoas gostam de colecionar, a gente anuncia na internet.

Não seria interessante aceitar pessoas que se tornassem sócias e dessem uma contribuição mensal?
Nós fazemos a campanha, mas eu não queria que as pessoas se sentissem obrigadas a nos ajudar. Eu queria que as pessoas ajudassem porque o coração está dizendo que tem que ajudar aquela obra, ainda que não seja mensalmente, que não seja como um contrato : “Ah, eu tenho a obrigação de ajudar a comunidade todo mês!”. Não! Se der vontade, ajuda a comunidade, seja financeira ou não: “Ah, vou comprar 5kg de carne e vou levar lá pra eles”...

Ou vir aqui roçar, passar o dia aqui, fazer um churrasco pra turma...
A gente vê dessa forma, a gente não quer que as pessoas sejam obrigadas.

Mas há pessoas que talvez ainda não os conheçam e se sentiriam dispostas a ajudar. Nós temos pessoas, no Rio, que nos ajudam fielmente, todo mês, e glória a Deus por isso! Como eu disse, são R$ 7.000,00 que temos que pagar todo mês. Para entenderem melhor, é importante falar dos nossos membros. Nós temos aqui na comunidade os consagrados, aqueles que aderem à idéia de semear a misericórdia, então se consagram ao carisma e se comprometem a ser semeadores dessa misericórdia. Podem ser consagrados de vida ou de aliança. Os consagrados de vida são os que moram na comunidade - somos nove aqui e seis no Rio Grande do Norte - e não necessariamente pertenceram à droga. De todos os consagrados, aqui, o único que tem algum histórico com drogas sou só eu, que fui usuário de droga. Os outros não. Os consagrados de aliança são aqueles que abraçam a idéia, se consagram ao carisma, vivem esse carisma tão intensamente como nós, porém vivem em suas casas, com suas famílias, trabalham, estudam. Eu costumo dizer que eles são importantíssimos para qualquer comunidade de vida, porque são aqueles que vão divulgar a comunidade fora dos muros. Porque às vezes nem temos tempo para sair daqui.

E qual é o caminho para fazer parte da comunidade?
O caminho passa por 3 anos de formação, por um caminho de aspirantado. Teremos agora uma turma de Magé, Petrópolis e São Gonçalo que vão fazer o caminho aqui.

E o que é esse caminho?
O caminho é o conhecimento do carisma, para poder se consagrar.

Quantos são de Magé?
Acredito que na turma de Magé e São Gonçalo que vai iniciar agora estamos com uns vinte membros novos no total, e temos lá no Rio mais uns 15 membros que também vão iniciar. São três turmas, uma inicia aqui, uma em Natal e outra no Rio.

Todos conectados nessa mesma proposta.
A formação é a mesma, todos estão ligados pelo carisma de semear a misericórdia.

Em que lugar, no Rio de Janeiro?
Complexo do Alemão, Olaria, Senador Camará, já tivemos na Rocinha. A gente trabalha onde tem espaço pra trabalhar, nós temos reuniões semanais e acolhemos não só os dependentes químicos.

E nesse total você tem ideia de quantos acolhedores?
Fazem parte da comunidade, sem contar com esses que vão entrar agora porque eles estão iniciando, ainda têm que ter três anos de experiência, em torno de cinqüenta a sessenta membros. Hoje além do padre Walney, nós temos o padre Gilberto, de Curitiba, que está nesse processo formativo para entrar e temos o padre Fabio do Rio Grande do Norte. Então já temos três padres que estão fazendo esse processo de entrar para a comunidade. Aliás dois, porque um já é, o padre Walney.

Padre Alan não se interessou?
O Padre Alan é o nosso paizão aqui em Magé. Aliás, todos os padres aqui de Magé nos acolhem muito bem: Padre Alan, Padre Ernande, que é o nosso Pároco, Monsenhor Ideu, Padre Jorge - na medida do possível, porque eles têm muitas tarefas, muitos afazeres. O Padre Alan da maneira dele, o Padre Ernande, sempre nos apoiou, dando abertura pra nós, no entanto que nós estamos em duas capelas dele. Cada padre contribui da maneira que pode, 
não podemos exigir muito porque sabemos das tarefas que eles têm e que a área de Magé é muito grande pra apenas 4 padres.

Você se considera um escolhido?
Toda vez que perguntam pra nós se somos escolhidos eu uso uma frase de Madre Teresa de Calcutá. Uma vez ela também foi questionada se era uma escolhida de Deus e eu repito sempre o que ela disse, que nós somos muito menos que isso, nós somos um lápis nas mãos de Deus, é Ele quem escreve tudo.